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Fisiculturismo e coração: por que tantos atletas estão infartando?

Médico do esporte alerta que uso de anabolizantes, dietas extremas e sobrecarga fisiológica aumentam risco cardiovascular mesmo entre jovens aparentemente saudáveis

às 20h01
Danillo Pereira- médico do esporte e professor da Universidade Tiradentes (Unit)
Danillo Pereira- médico do esporte e professor da Universidade Tiradentes (Unit)
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O aumento de casos de infarto do miocárdio entre pessoas jovens tem chamado a atenção de médicos e uma parcela desses episódios envolve praticantes de musculação intensa e fisiculturistas. O que antes era considerado um problema predominantemente associado a pessoas acima dos 50 anos passou a aparecer com maior frequência antes dos 40. No Brasil, por exemplo, as internações por infarto em indivíduos com menos de 40 anos passaram de 1,7 caso por 100 mil habitantes em 2000 para quase 5 casos por 100 mil em 2022, um aumento de cerca de 184%. 

Além disso, pesquisas internacionais indicam que atletas do fisiculturismo podem apresentar maior incidência de morte cardíaca súbita. Um estudo publicado no periódico científico European Heart Journal, que analisou mais de 20 mil fisiculturistas profissionais, identificou 121 mortes ao longo do período avaliado e cerca de 38% delas tiveram origem em problemas cardíacos. Embora o treinamento de força seja amplamente reconhecido como benéfico para a saúde cardiovascular, o contexto competitivo do fisiculturismo envolve uma combinação de fatores que pode elevar significativamente os riscos para o coração.

Ambiente competitivo

Conforme explica o médico do esporte e professor da Universidade Tiradentes (Unit), Danillo Pereira, o aumento do risco cardiovascular observado em alguns fisiculturistas não está necessariamente ligado ao treinamento de musculação em si, mas ao conjunto de práticas frequentemente presentes no ambiente competitivo do esporte. Segundo ele, o problema envolve a associação entre uso de substâncias, exigências estéticas extremas e níveis elevados de estresse fisiológico.

“Entre os principais fatores estão o uso de esteroides anabolizantes, estimulantes, dietas muito restritivas e níveis elevados de estresse fisiológico. Estudos mostram que fisiculturistas profissionais apresentam maior incidência de hipertensão arterial, hipertrofia cardíaca patológica, dislipidemia e aterosclerose precoce, o que aumenta o risco de eventos cardiovasculares como o infarto. É importante destacar, no entanto, que o treinamento de força realizado de forma natural e supervisionada é considerado cardioprotetor”, afirma.

Entre os fatores mais preocupantes está o uso, muitas vezes prolongado, de esteroides anabolizantes androgênicos. A literatura científica aponta que essas substâncias podem provocar alterações importantes no metabolismo e no sistema cardiovascular. O uso de anabolizantes pode reduzir o colesterol HDL (o chamado “bom colesterol”), elevar o LDL, aumentar a pressão arterial e favorecer o desenvolvimento de aterosclerose precoce, fatores diretamente associados ao infarto. 

“O uso e o abuso de esteróides anabolizantes provocam mudanças no perfil lipídico, aumento da pressão arterial e remodelação cardíaca. A hipertrofia que ocorre nos músculos esqueléticos também pode ocorrer no músculo cardíaco, criando um desequilíbrio entre a oferta e a demanda de oxigênio e nutrientes. Além disso, há aumento da viscosidade sanguínea e alterações em diferentes sistemas do organismo, inclusive no neuroendócrino e no psiquiátrico, o que pode levar inclusive à dependência química dessas substâncias”, explica.

Coração do atleta

Nem toda alteração cardíaca observada em atletas representa necessariamente uma doença. Existe uma adaptação fisiológica conhecida como “coração do atleta”, resultado de anos de treinamento intenso. De acordo com o médico do esporte, essa adaptação costuma ser benigna quando ocorre em atletas naturais.

“Atletas naturais geralmente apresentam adaptações cardíacas fisiológicas semelhantes às observadas em outros esportes. Isso inclui aumento da massa cardíaca, maior eficiência de bombeamento e melhora da função cardiovascular. O problema surge quando o uso crônico de esteróides entra nesse processo, porque a hipertrofia cardíaca passa a ser desproporcional e pode evoluir para disfunções e maior formação de placas coronarianas”, afirma.

Ele também ressalta que o excesso de massa muscular, por si só, não é considerado um fator direto de risco para infarto. “Em indivíduos saudáveis, o coração costuma se adaptar bem ao aumento da massa muscular. O risco aparece quando esse ganho está associado ao uso de substâncias hormonais”, relata.

Sinais ignorados

Outro problema frequente entre atletas é a tendência de ignorar sintomas que podem indicar problemas cardiovasculares. Segundo Danillo Pereira, sinais como dor ou pressão no peito durante esforço, falta de ar desproporcional, palpitações, tontura, quase desmaio ou queda inexplicada de desempenho físico são sinais de alerta que muitas vezes são interpretados apenas como fadiga de treino. “Isso é relativamente comum. Muitos atletas acreditam que o desconforto faz parte da rotina de treinamento intenso e acabam adiando a busca por avaliação médica, o que pode atrasar o diagnóstico de problemas cardíacos importantes”, alerta.

Além das substâncias hormonais, fatores relacionados ao estilo de vida também contribuem para elevar o risco cardiovascular em atletas de alto rendimento. Privação de sono, estresse constante e excesso de treinamento, conhecido como overtraining, podem desencadear alterações hormonais e inflamatórias relevantes. “Esses fatores aumentam o cortisol, pioram a resistência à insulina e elevam a pressão arterial. O estresse crônico e o treinamento excessivo hiperestimulam o sistema nervoso simpático e aumentam a inflamação sistêmica, o que impacta diretamente o sistema cardiovascular”, explica o especialista.

Algumas substâncias utilizadas durante as fases de definição muscular também podem agravar o problema. “Estimulantes como efedrina e clembuterol podem provocar taquicardia e arritmias, levando a alterações estruturais e funcionais no coração”, acrescenta.

Monitoramento

Para reduzir riscos, o acompanhamento médico regular é considerado essencial para atletas que praticam musculação em alto nível. Entre os exames recomendados estão avaliação clínica periódica, exames laboratoriais, como perfil lipídico, glicemia, hemograma e marcadores hormonais, além de exames cardíacos, como ecocardiograma com strain e testes ergométricos ou cardiopulmonares. No entanto, o especialista ressalta que exames normais não garantem segurança absoluta quando há uso de substâncias hormonais. “Os efeitos colaterais podem surgir a curto, médio ou longo prazo, e muitas alterações não aparecem imediatamente nos exames”, ressalta.

Apesar dos riscos associados a algumas práticas do fisiculturismo, Danillo reforça que o exercício físico continua sendo um dos pilares da saúde cardiovascular. “O exercício regular reduz o risco de doenças cardíacas. O problema não é o fisiculturismo em si, mas alguns comportamentos associados ao ambiente competitivo, principalmente o uso recreativo de hormônios”, afirma. Para ele, a estratégia mais eficaz de prevenção é a educação em saúde e a tomada de decisões informadas. “O objetivo não é gerar medo, mas conscientizar. Atletas que recebem orientação adequada e acompanhamento médico conseguem reduzir riscos e proteger a saúde a longo prazo”, finaliza.

Mais informações:

Para quem busca entender mais sobre o assunto, Danillo possui um canal no youtube onde ele esclarece dúvidas e aborda o conteúdo de forma explicativa com base em dados e fundamentos teóricos e científicos:

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