Um calor cada vez mais frequente e insuportável, que traz a sensação de estar dentro de uma estufa ou de uma panela fervente. Assim convivem os moradores de determinados bairros ou regiões de grandes (e até mesmo médias) cidades do Brasil e do mundo. Tratam-se das chamadas “ilhas de calor”: áreas isoladas que são termicamente sensíveis e propícias ao aumento das temperaturas, as quais costumam ser ligeiramente mais altas em comparação às outras regiões ou bairros da mesma cidade. Este fenômeno já vem sendo identificado há algum tempo em locais como a Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, ou a área central de São Paulo (SP).
Essas “ilhas de calor” podem ser identificadas pela elevação da sensação térmica em algumas áreas, para as quais convergem fatores como excesso de pavimentação asfáltica nas ruas, redução da permeabilidade (absorção de água) do solo, ausência ou baixa densidade de árvores, uso de materiais de construção que absorvem calor e poluição do ar causada pela movimentação intensa de veículos movidos à combustão.
Além destes fatores, o professor Rooseman de Oliveira Silva, do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Tiradentes (Unit), elencou questões relacionadas à ocupação do solo dessas regiões afetadas: “a presença de barreiras naturais e/ou artificiais, como morros ou edifícios que impedem a ventilação natural; a forma e proximidade das edificações que compõem a paisagem (morfologia urbana); o uso de cores escuras nos elementos de composição urbana com baixa capacidade de repelência e de reflexão do calor; o estilo de vida corrido da população, por vezes desconectado da natureza; e a falta de planejamento urbano que estabeleça melhores diretrizes de ocupação do espaço e que ainda preserve as áreas verdes remanescentes”.
De acordo com Rooseman, esse é um fenômeno que pode acontecer em qualquer lugar onde prevaleça os fatores favoráveis às ilhas de calor. “Entretanto, é mais propício encontrarmos ilhas de calor em cidades densamente ocupadas e com verticalização intensa. As condições ideais para a formação das ilhas de calor são a junção dos fatores descritos. Se houver, em média, 50% dos fatores acima incidindo sobre uma determinada área, provavelmente tal área estará propensa a sofrer os efeitos desgastantes das Ilhas de calor”, explicou ele, citando ainda exemplos de outras metrópoles brasileiras como Recife (PE), Salvador (BA), Fortaleza (CE), Belém (PA) e Manaus (AM).
Em Aracaju
Dentro destes critérios, o professor Rooseman cita que alguns bairros de Aracaju tiveram áreas com formação de “ilhas de calor”, nas quais as temperaturas e a sensação térmica estão ligeiramente mais altas que em outras áreas. “Algumas áreas dos bairros Jardins (Loteamento Garcia), 13 de Julho (próximo à Avenida Francisco Porto), Grageru (canal da Avenida Silvio Teixeira), etc, tornaram-se ilhas de calor nos últimos anos, considerando a proporção de suas ocupações”, diz ele. Nelas, foi identificada uma grande concentração de edifícios e uma redução de áreas verdes, além de uma circulação menor das correntes de brisas e ventos.
A formação destas “ilhas de calor” em Aracaju contrasta com as condições naturais proporcionadas pelas características geográficas da cidade: por ser situada em uma área de beira-mar e beira-rio, onde os rios Poxim e Sergipe desaguam no Oceano Atlântico, a capital sergipana é tida como propícia para a passagem de brisas marinhas vindas do mar, o que ameniza a sua temperatura média em relação a outras regiões mais ao interior. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a temperatura máxima média de Aracaju tem variado ao longo do ano entre 27,9 e 30,9 graus Celsius (ºC).
No entanto, Rooseman garante que estas características não são o suficiente para tornar Aracaju e outras cidades em geral “menos suscetíveis” à formação das “ilhas de calor”. “O que tornará uma cidade mais ou menos suscetível à formação das ilhas de calor são os processos de ocupação do solo urbano e a permissividade da legislação urbanística”, aponta o professor, acrescentando que essa situação pode piorar, mas não com os atuais fenômenos relacionados às mudanças climáticas, “mas sim, e principalmente, pelo desinteresse governamental em efetivar uma mudança político-jurídica no modo de ocupação do solo urbano e no modo de construir cidades”.
Como mitigar
Tal atitude passa por medidas e políticas públicas que diminuam ou mesmo evitem o surgimento das “ilhas de calor” nas cidades. Entre elas, está a aprovação, através dos Planos Diretores locais, de uma legislação que evite a proximidade entre edificações. “Isso pode ser solucionado através da redução do coeficiente de aproveitamento, que é o índice resultante da relação entre a área do lote e a área construída de uma edificação”, explica Rooseman, que defende ainda “espaçar as edificações de modo a gerar canais de circulação eólica” e “substituir gradualmente, nas áreas mais afetadas, a pavimentação asfáltica pela pavimentação semipermeável”, ou seja, que permita a absorção das águas, de modo que a taxa mínima de permeabilidade atual aumente de 5% para 20%.
Outro ponto mais defendido é a elaboração e execução de um plano de arborização urbana, com plantio de mudas arbóreas e a instalação de jardins de chuvas, sempre que possível, nas calçadas. “Se esses programas de arborização forem executados e acompanhados pelos órgãos públicos competentes, dentro de um plano maior de sustentabilidade urbana, eles podem ajudar a frear esse fenômeno”, assegura ele
O professor sugere ainda o uso de materiais mais sustentáveis na construção civil, resultantes de processos de reciclagem; a aplicação de novas técnicas de execução de obras; a aplicação de cores claras nas estruturas prediais para refletir e dissipar a insolação; a revisão dos Planos Diretores com foco na qualidade de vida urbana da população em cada município; a melhoria do sistema público de transporte e o incentivo ao consumo de carros elétricos, inclusive com redução de impostos.
Enquanto essas medidas não são adotadas pelas autoridades municipais, algumas alternativas podem ser buscadas por quem já vive em uma destas “ilhas de calor” e precisa lidar diariamente com seus efeitos, além de ter paciência e ingerir bastante água. “Ele pode buscar, nas reuniões de bairro e/ou condomínio, mais pessoas interessadas em investir e em aplicar medidas mitigadoras nas estruturas urbanas que formam o entorno imediato de uma área impactada. O uso de climatização domiciliar e veicular é a solução mais comum – adotada por aqueles que podem assumir elevados custos de consumo de energia elétrica. Essa também é uma forma de lidar com os efeitos prejudiciais das ilhas de calor, conclui Rooseman.
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