Neste ano de 2025, muita gente pelo mundo aderiu a uma febre curiosa: a de dedicar algumas horas do seu dia para testar as suas habilidades na pintura, buscando viver seus momentos de Van Gogh, Picasso, Portinari ou o filhinho (irmãozinho, sobrinho, etc) de seis anos que acabou de sair da creche. Chamada pelo nome Bobbie Goods, ela consiste nos livros com figuras em preto e branco que podem ser pintadas livremente em quaisquer cores, seja com lápis de cor, tinta guache, giz de cera ou caneta hidrográfica.
A série que inspirou a febre foi criada em 2021 pela designer e ilustradora norte-americana Abbie Goveia, como uma estratégia de passatempo para pessoas que ficavam em casa durante a vigência das medidas de isolamento social contra a Covid-19. Com quatro edições tradicionais e oito personagens, os livros trazem elementos lúdicos, sobretudo ursinhos e outros bichos em paisagens e momentos idílicos do cotidiano, como um passeio no parque, uma tardinha no campo ou uma manhã cuidando da casa, entre outras.
Inicialmente voltados inicialmente para o público infantil, ela rapidamente conquistou os adultos que enxergaram naquelas figuras uma terapia, que além de remeter à infância, proporciona diversas sensações de paz, tranquilidade, relaxamento e em alguns casos, foco exclusivo em uma determinada tarefa, que o ajuda a “desligar-se” do mundo à sua volta, além de estimular a pessoa através da liberdade de combinação de cores. Em alguns casos, as pinturas acabam contribuindo para dar estabilidade para pessoas que se recuperam de alguma cirurgia ou doença. E igualmente proporcionam aprendizado, assim como acontece com as crianças.
“A gente tem um aprendizado, que é o exercício da atenção plena e da criatividade, o que com o passar do tempo, muitas vezes, as crianças acabam não conseguindo mais trazer tanto, pelo excesso de telas. Já os adultos usam como uma ferramenta de hobby, para poder extravasar e poder tirar um pouco o foco do dia do trabalho. Para as crianças, a gente os usa muito para trabalhar com a atenção, a criatividade, a imaginação e vários outros processos psicológicos básicos”, explica a professora Catiele dos Reis Santos, do curso de Psicologia da Universidade Tiradentes (Unit) e especializada em Psicologia da Infância.
Isso acontece porque, ao pintar, a pessoa fica concentrada em terminar a pintura com o máximo de capricho e de atenção, mesmo sem a pressão de ter um tempo, objetivo ou resultado definido. É o que Catiele define como ‘efeito de flow’. “Trata-se de uma concentração a longo tempo fazendo uma coisa que você não precisa pensar tanto. E isso daí traz esse relaxamento porque a pessoa está em concentração e atenção plena durante esse tempo”, diz a professora.
A popularidade dos livros de colorir se propagou através de vídeos nas redes sociais, nos quais muitos adultos mostravam os momentos de pintura e os resultados deles, com muitos trabalhos bem caprichados (e outros nem tanto). A série Bobbie Goods foi trazida ao Brasil em 2025 pela editora Harper & Collins, que já contabilizou mais de 2,5 milhões de exemplares vendidos, segundo dados publicados pelo site Exame.
Ela deu origem a outras séries para crianças e também mais voltadas aos adultos, trazendo flores, paisagens mais elaboradas e até mesmo sátiras como a “Pobre Goods”, criada pela empreendedora fluminense Evelini Araújo. Ela também desenhou situações do cotidiano, mas substituiu o idílico pela crítica, e os ursinhos fofos por trabalhadores exaustos perdendo o ônibus, enfrentando filas ou fazendo as contas do mês com pouco dinheiro. Apesar dos temas e dos públicos diferentes, os livros de colorir são, à luz da Psicologia, um elemento benéfico e positivo para adultos e crianças, que sentem o mesmo efeito flow.
“Tanto um quanto o outro fazem o mesmo efeito, porque na verdade é um exercício projetivo, de você colocar para fora cores e situações que você tem no seu dia a dia. A gente para pra prestar atenção em uma única coisa, sai um pouco das telas, exercita a criatividade, etc. Não gera uma infantilização, como estão pensando”, considera Catiele.
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