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O uso de agrotóxicos no Brasil e os métodos biológicos para controle de pragas

Como a ciência brasileira tem pesquisado produtos menos nocivos para substituir agrotóxicos já proibidos em outros países

às 13h37
Aplicação de bioinseticida em laboratório para testes.
Aplicação de bioinseticida em laboratório para testes.
O professor Marcelo Mendonça, coordenador do Programa de Pós-graduação em Biotecnologia Industrial (PBI) e pesquisador do Instituto de Tecnologia e Pesquisa (ITP).
Teste de eficiência do bioinseticida para o controle de uma praga (traça das cruciferas) em uma gaiola com a criação deste inseto.
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No Brasil, o uso de agrotóxicos ainda é o principal método de controle de pragas e doenças das plantas, no entanto, o seu uso tem sido discutido por diversas entidades. Muitos inseticidas químicos proibidos em países da Europa e dos Estados Unidos ainda são utilizados no país, prejudicando o meio ambiente por meio da contaminação do solo, e a população, devido a intoxicações durante a aplicação dos produtos ou através dos resíduos nos alimentos. Por isso, os fabricantes e o setor agropecuário, que fazem uso destes produtos, enfrentam pressão para substituir os métodos convencionais por outros menos agressivos e tóxicos.

Segundo o professor Marcelo Mendonça, coordenador do Programa de Pós-graduação em Biotecnologia Industrial da Universidade Tiradentes (PBI/Unit) e pesquisador do Instituto de Tecnologia e Pesquisa (ITP), a busca por alimentos saudáveis, a preservação do meio ambiente e o desenvolvimento sustentável têm gerado essa nova demanda para as empresas que produzem inseticidas químicos.

“Os agrotóxicos têm classificações toxicológicas, que variam de um a quatro, e de cores, que sinalizam o nível de toxicidade desde extremamente tóxico a pouco tóxico. Hoje, cresceu muito o número de agrotóxicos faixa verde, que têm uma toxicidade menor. O mercado vem buscando moléculas químicas que sejam mais seletivas, menos tóxicas ao ser humano, mas que sejam eficientes para as doenças, insetos ou pragas”, esclareceu o professor Marcelo.

Nos últimos cinco anos, houve um aumento de 25% no uso de agrotóxicos, que somam cerca de 2.300 produtos registrados. A exposição de seres humanos a eles causa febre, vômito, dor de cabeça e diarreia.

Em alguns municípios de Sergipe há registros do uso excessivo de agrotóxicos, a exemplo do acidente ecológico que ocorreu no Riacho da Marcela, em Itabaiana. No local, foram identificados a presença de metais pesados e o lançamento de esgoto, ocasionando a morte de centenas de peixes, além da intoxicação de trabalhadores das plantações próximas e do aumento do número de câncer em famílias de agricultores. “No município de Itabaiana, em áreas cultivadas com hortaliças ainda é utilizada uma quantidade muito grande de agrotóxicos para se obter um produto com boa aparência, livres dos danos causados por pragas e doenças. Há relatos de problemas de contaminação do Riacho da Marcela, pelo uso excessivo de agrotóxicos na agricultura ao redor”, citou o pesquisador.

Ele explica que existem várias técnicas de controle de pragas e doenças para substituir ou minimizar o uso dos produtos químicos tradicionais. São métodos culturais, físicos e, principalmente, biológicos, dentre outros, que são aplicados baseados no conceito de manejo integrado, que possibilita a utilização de vários métodos de controle, inclusive o químico, mas somente em última instância, empregando-se produtos de baixa toxicidade, em subdosagem e na forma de aplicação seletiva.

“Entre os métodos de controle integrado, destacamos o método biológico, em que utilizamos organismos vivos para o controle de pragas e doenças das plantas. Este método de controle já ocorre naturalmente no campo, através de insetos predadores e parasitoides, fungos, vírus e bactérias, que são organismos que controlam as pragas. Porém, o método biológico pode ser manejado de forma a conservar estes organismos no campo ou mesmo aumentar, inclusive, pelo uso de produtos comerciais disponíveis no mercado”, exemplifica Marcelo.

Pesquisa

Nesse sentido, o Programa de Pós-graduação em Biotecnologia Industrial (PBI/Unit) realiza pesquisas voltadas para a formulação de inseticidas biológicos e botânicos, que não causam danos ao aplicador, à população e também não provocam impacto ambiental. “Temos trabalhado basicamente em duas linhas: produção e desenvolvimento de produtos a partir de microrganismos, principalmente fungos entomopatogênicos, que causam doença em insetos pragas dos óleos essenciais de plantas”, explicou. Essas pesquisas têm contado com o apoio financeiro de agências de fomento (Capes, CNPq e Fapitec/SE) e do Banco do Nordeste (BNB).

“O trabalho é inovador, feito pelo grupo de pesquisa da Biotecnologia, por mim e, em parceria, com as professoras Patrícia Severino e Sona Arun, também integrantes do PBI. As pesquisas têm sido direcionadas para o desenvolvimento de tecnologias de produção dos micro-organismos de forma artificial, e também para a sua formulação, transformando-os em bioinseticidas para serem utilizados nas lavouras”, complementou o pesquisador Marcelo.

O tema é estudado por alunos de mestrado e doutorado do Programa. Os trabalhos são voltados para extratos de fungos entomopatogênicos, tema da tese de doutorado de um dos alunos, a confecção de um inseticida formulado com base nos óleos extraídos de plantas, e o encapsulamento de fungos entomopatogênicos para serem utilizados como inseticida microbiológico, realizados por estudantes de mestrado.

Para o professor Marcelo Mendonça, a ciência tem buscado opções para vários problemas enfrentados pela sociedade, neste caso, o uso de agrotóxicos. “Esta é uma das contribuições da pós-graduação da Unit: disponibilizar ao setor agrícola produtos inovadores e eficientes para o controle de pragas e que não causam impacto ao meio ambiente nem à saúde do produtor ou da população. Para nós, que somos pesquisadores, trabalhando aqui, na produção de conhecimento, interessa muito atingir o objetivo de trazer benefícios à sociedade. Toda a nossa sociedade será beneficiada. O produtor, produzindo alimentos livres de danos causados pelas pragas, e a população que consome estes produtos saudáveis, sem resíduos químicos”, concluiu.

 

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