Uma pesquisa realizada no âmbito do curso de Ciências da Computação da Universidade Tiradentes (Unit), sobre a renderização de humanos virtuais para aperfeiçoar e corrigir distorções nas variações de seus tons de pele, acaba de ser contemplada com uma bolsa de iniciação científica concedida pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Neurociência Social (INCT-Sani), um grupo interdisciplinar especializado em pesquisas sobre a relação entre processos neurais e sociais. Esse grupo reúne equipes e laboratórios de nove universidades brasileiras, com sede na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo (SP).
O edital lançado pelo INCT aprovou o projeto de iniciação científica apresentado pelo aluno Erick Marck de Barros Menezes, do sexto período do curso, cujo foco está na criação e análise de um banco de dados de humanos virtuais realistas com variações sistemáticas de cor da pele, gênero, emoção e iluminação. O incentivo para participar do edital veio do professor Victor Flávio de Andrade Araújo, que é o orientador da pesquisa na Unit e estuda o tema em seu pós-doutorado no Sani.
De acordo com Victor, este é o desdobramento de um projeto que envolve diversidade e humanos virtuais, e que tem um braço atuante no Grupo de Pesquisa Interdisciplinar em Tecnologia, Computação e Sociedade (GPITICS), ligado à Unit. “O Erick já estava meio que envolvido em um assunto similar ao meu projeto de pós-doutorado. O que eu fiz foi apresentar o trabalho dele para uma pesquisadora do INCT-Sani, ela curtiu e desenvolvemos o projeto juntos. Aí, o Sani abriu um edital de iniciação científica, eu falei para Erick se inscrever, e o projeto foi apenas oficializado”, contextualizou.
Neste projeto, o aluno está sendo co-orientado pela professora Soraia Raupp Musse, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), que é uma das principais especialistas do país em neurociência social e também orienta o professor Victor no pós-doutorado. Os três desenvolveram o pôster “Evaluating Skin Tone Biases in Virtual Human Rendering“, que foi aceito para apresentação no Grupo de Interesse Especial em Gráficos e Técnicas Interativas (SIGGRAPH 2025), conferência internacional que aconteceu entre os dias 10 e 14 de agosto, em Vancouver (Canadá). E foi a partir deste poster que surgiu o projeto aprovado no edital de bolsas do Sani.
“Acredito que um ponto muito forte foi o fato de esta pesquisa ser uma continuação de um trabalho anterior que foi aceito como pôster na SIGGRAPH, que é uma das conferências mais importantes e prestigiadas do mundo na área de computação gráfica e técnicas interativas. Ter um trabalho aceito lá já é um grande reconhecimento, e creio que isso demonstrou o potencial e a relevância do nosso projeto para a banca avaliadora da bolsa”, comemora Erick, que desenvolve pesquisas com o professor Victor desde o início do curso na Unit.
“Para mim, é um passo muito importante e representa mais um tijolo na construção de uma carreira acadêmica sólida. Ser bolsista de um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, como o Sani, é um reconhecimento significativo do trabalho que estamos desenvolvendo e nos conecta a uma rede de pesquisadores de excelência em todo o país”, acrescenta o estudante, que já enxerga a abertura de muitas oportunidades.
“Trabalhar diretamente com a professora Soraia Musse, que é uma pesquisadora extremamente reconhecida na área de computação gráfica e simulação de multidões, é um privilégio. O nível de exigência e a qualidade do trabalho desenvolvido sob sua orientação certamente abrirão portas, tanto na academia, para um futuro mestrado ou doutorado, quanto no mercado de trabalho, em empresas que atuam com tecnologia de ponta”, cita Menezes.
Visibilidade nacional e mundial
Além do INCT, que é composto por instituições como a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade de Brasília (UnB), a PUC de São Paulo (PUC-SP) e as federais do Rio Grande do Sul (UFRGS) e do ABC Paulista (UFABC), a equipe do professor Victor tem uma parceria para divulgar o trabalho no Counter Graphs, um grupo internacional que elabora e discute trabalhos sobre vieses raciais na computação, e que conta com pesquisadores de renomadas universidades dos Estados Unidos, como Harvard, Yale e Columbia.
Esta visibilidade internacional do estudo é considerada como um dos pontos mais favoráveis da pesquisa, além da relevância do tema. “Acredito que estamos atacando um problema mundial, que é a não representatividade de cor de pele em algoritmos computacionais. No mundo, não existem algoritmos que criem cor de pele diversa. Então, esse é um projeto com caráter inovador, e mostra que temos alunos na Ciência da Computação que podem produzir ciência de ponta”, destaca o professor.
A previsão é que a pesquisa de IC desenvolvida por Erick Menezes seja desenvolvida a partir deste mês de setembro e dure um ano, em grande parte com interação remota entre a Unit, em Aracaju, e a PUC-RS, em Porto Alegre (RS). O aluno também irá participar de eventos e congressos relacionados ao tema. “A bolsa é fundamental, pois oferece o suporte financeiro necessário para que eu possa me dedicar mais intensamente ao projeto. Além dos recursos, que podem viabilizar a aquisição de ferramentas ou a participação em eventos, o principal ganho é o tempo e o foco que poderei dedicar à pesquisa. Isso permite aprofundar os estudos, realizar mais experimentos e, consequentemente, buscar resultados mais robustos e de maior impacto”, considera o aluno.
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