Na construção civil, milhões de toneladas de resíduos são geradas todos os anos, ocupando aterros e consumindo recursos naturais. Diante desse cenário, uma alternativa sustentável vem ganhando espaço: o reaproveitamento desses resíduos para fabricar materiais de construção, como os chamados tijolos ecológicos blocos produzidos por compressão que utilizam resíduos de construção e demolição (RCD) no lugar de parte da matéria-prima tradicional. A incorporação de RCD pode reduzir a extração de solos naturais, diminuir emissões e produzir tijolos com características mecânicas promissoras.
A ideia de transformar o “lixo” de obra em tijolo surgiu para Camila Silva Oliveira, estudante de Engenharia Civil da Universidade Tiradentes (Unit) a partir do grande volume de materiais descartados após construções e demolições. “Observamos que boa parte desse resíduo poderia retornar ao ciclo construtivo”, diz Camila, ressaltando que o foco foi justamente buscar uma alternativa técnica que minimize desperdício e dê valor aos materiais descartados.
A pesquisadora explica que sua investigação concentrou-se na adição de RCD à massa do tijolo ecológico, um processo que envolve ensaios químicos, físicos e testes de resistência em laboratório. Essa abordagem é semelhante às encontradas em estudos acadêmicos que analisam alternativas sustentáveis para produção de blocos e geopolímeros com resíduos, os quais frequentemente substituem parte de solo ou argila convencional para conferir desempenho mecânico adequado.
Mais que sustentabilidade
A pesquisa de Camila encontrou resultados interessantes: mesmo sem utilizar queima, etapa tradicional dos tijolos de cerâmica, foi possível obter blocos compactados que se comportam de forma semelhante aos convencionais. “Conseguimos produzir o mesmo tipo de tijolo sem a necessidade de queima em forno, pois o processo é feito com prensa manual”, diz Camila. Ao eliminar essa etapa térmica, reduz-se a emissão de poluentes, contribuindo positivamente para a camada de ozônio e para a redução da pegada ambiental da construção.
Além disso, Camila afirma que a substituição do solo tradicional por resíduos de concreto, parte do RCD, preserva a matéria-prima natural e reduz a necessidade de extração de solos e argilas, ação tradicionalmente necessária para a fabricação de tijolos. A utilização de RCD como material principal para produção de blocos apresenta ainda potencial para gerar economia de recursos na construção civil, um dos setores que mais impacta o meio ambiente.
O trabalho contou com a parceria de Thaís Alves e suporte técnico do Instituto de Tecnologia e Pesquisa (ITP), que viabilizou a realização dos ensaios químicos necessários. “A colaboração com o ITP foi essencial para caracterizar os materiais e entender como as propriedades físicas e químicas dos resíduos influenciam a resistência final dos tijolos”, ressalta.
Camila avalia que a experiência trouxe ganhos pessoais e profissionais importantes. “A iniciação científica foi algo que me marcou bastante e me ajudou a olhar a engenharia com outros olhos, especialmente a parte sustentável, pois a construção civil é uma das áreas que mais afeta e polui o meio ambiente”, afirma. E, segundo ela, a atuação em pesquisa também ampliou seu networking e conhecimentos práticos em laboratório.
Aplicações e futuro
Embora o projeto tenha obtido tijolos capazes de servir como vedação, Camila admite que ainda há caminho a percorrer para que o material atinja resistência suficiente para uso em alvenaria estrutural, um requisito técnico fundamental para aplicações mais exigentes. “Conseguimos resistência apenas para que o bloco funcione como vedação; gostaríamos de avançar para que ele pudesse ser utilizado em elementos estruturais”, explica.
Para além da academia, a pesquisadora tem planos concretos de aplicar o conhecimento diretamente no mercado de trabalho, sem necessariamente cursar um mestrado. “Não pretendo seguir carreira como mestranda, mas quero aplicar a pesquisa diretamente no trabalho profissional”, diz. Sua perspectiva é que soluções como essa, que buscam reaproveitar resíduos e tornar a construção civil mais sustentável, serão cada vez mais demandadas pela indústria.
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