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Projeto de lei contra adultização de crianças ganha força após vídeo viral

Discussão no Senado ocorre em meio a debate público sobre limites da infância e impactos das redes sociais

às 18h41
Ana Karolina Silveira- Psicóloga e professora da Universidade Tiradentes
Ana Karolina Silveira- Psicóloga e professora da Universidade Tiradentes
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A discussão sobre a adultização de crianças e adolescentes ganhou grande repercussão após um vídeo do influenciador digital Felca, que viralizou nas redes sociais ao expor a forma como a infância e a adolescência têm sido sexualizadas e expostas a conteúdos inadequados. Essa denúncia acendeu um alerta para um fenômeno que há muito tempo se manifesta, mas que encontra na internet um campo fértil para se expandir. Diante da comoção social, o Senado Federal se prepara para votar um projeto de lei que visa regulamentar a exposição de menores na internet e proteger seu desenvolvimento integral.

O que é ‘adultização’ e como identificá-la?

Segundo a psicóloga Ana Karolina Silveira, professora da Universidade Tiradentes, adultizar uma criança é colocá-la em papéis e responsabilidades que não correspondem à sua fase de desenvolvimento. “Isso pode aparecer de forma prática, como quando um adolescente assume cuidados de irmãos, ou de forma simbólica, quando ele é tratado como um mini adulto, sem espaço para viver a infância de forma plena”, explica. O resultado, de acordo com a especialista, é a antecipação de pressões emocionais e sociais que deveriam ser vividas apenas na vida adulta.

Entre os indícios de adultização estão a falta de tempo para brincar, o uso de linguagem ou comportamentos que imitam adultos e a sobrecarga emocional por assumir responsabilidades que não lhe cabem. “Essas situações podem levar a quadros de ansiedade, insegurança e até depressão. No campo cognitivo, há pesquisas que apontam prejuízos na atenção e memória. Socialmente, crianças e adolescentes adultizados tendem a se sentir deslocados entre os colegas da mesma idade, o que dificulta a socialização. Contudo, é no mundo digital que a exposição a padrões de vida e conteúdos adultos acelera esse processo”, afirma Ana Karolina.

Ambientes onde o problema se manifesta

Embora a internet esteja no centro das discussões atuais, a adultização pode ocorrer em vários espaços. No ambiente familiar, quando há sobrecarga de funções; na escola, pela cobrança excessiva de desempenho; e no digital, por meio da exposição a padrões estéticos e de comportamento. “As redes sociais aceleram esse processo ao impor a ideia de corpos perfeitos, estilos de vida adultos e sexualização precoce”, analisa a psicóloga. A especialista destaca ainda que, em diferentes contextos socioeconômicos, as formas de adultização podem variar, indo da necessidade prática até a cobrança estética.

Para Ana Karolina, a prevenção passa por atenção aos sinais e por permitir que cada fase da vida seja vivida plenamente. “É essencial que os pais ofereçam limites, mas também espaço para brincar, errar e amadurecer de forma gradual”, afirma. Enquanto a escola deve atuar como ambiente protetivo, valorizando não apenas o desempenho acadêmico, mas também a convivência, a criatividade e o direito ao brincar. “A infância precisa ser reconhecida como etapa essencial do desenvolvimento, e não como preparação precoce para a vida adulta”, completa Ana Karolina. Já a sociedade, de forma geral, precisa discutir a importância da infância e reforçar os limites na mídia, nas redes sociais e nas formas de exploração infantil, sejam elas explícitas ou sutis.

Políticas públicas e legislação

A criação de projetos de lei que tratam do tema é fundamental, pois reconhece o impacto do fenômeno e cria mecanismos de proteção. A legislação atual, com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), já garante princípios importantes, mas ainda existem lacunas, especialmente no que diz respeito à regulamentação do ambiente digital. A especialista defende que políticas públicas podem atuar na educação, fortalecendo a escola como espaço de proteção; na família, oferecendo orientação; e na sociedade, regulamentando conteúdos e ampliando as campanhas de conscientização.

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