A Bienal de Arquitetura Brasileira é um dos principais espaços de difusão da produção arquitetônica contemporânea do país, reunindo projetos selecionados em âmbito nacional para representar diferentes estados e perspectivas de criação. A escolha ocorre por meio de curadoria especializada, que avalia conceito, relevância cultural, inovação e coerência projetual. A primeira edição será realizada em março de 2026, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, reunindo propostas que expressam a diversidade territorial e simbólica da arquitetura brasileira.
Entre os escolhidos está o projeto “Relicário de Vóinha”, desenvolvido pelo Mangaba Estúdio, coletivo formado majoritariamente por egressos do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Tiradentes (Unit), além de profissionais com formação em outras instituições. A proposta foi selecionada em concurso nacional para representar Sergipe e apresenta uma narrativa arquitetônica baseada em herança, memória e modos de morar, inspirada nas casas das avós e na simbologia dos quintais como espaços de convivência e cuidado.
Integram a equipe responsável pelo projeto os profissionais Bárbara Souza Monteiro, Cayo Moreira Alcântara, Cassiano Silveira, Giovanna Arruda, Ptrucio Maciel- egresso da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Cecília Santos Sales, Dara Maria e Ariel Luana. A participação no evento também abre espaço para parcerias institucionais e patrocínios que viabilizem a montagem expositiva e ampliem a projeção nacional do grupo.
Origem e identidade
O estúdio surgiu em 2020, logo após a formatura de Cayo, quando ele decidiu iniciar a carreira criando o próprio escritório e convidou Bárbara para a sociedade ainda durante a graduação. Segundo eles, o coletivo nasceu da convivência acadêmica e da afinidade construída em estágios e atividades universitárias. “O Mangaba nasce de uma amizade e de uma visão semelhante sobre arquitetura e urbanismo. Queríamos pensar projetos a partir de outras lógicas, e isso foi se consolidando ao longo do tempo”, explicaram.
A proposta inicial era estruturar um espaço criativo que integrasse arquitetura, urbanismo, design e gastronomia, eixo que acabou não sendo aprofundado, mas que ajudou a moldar a ideia de transversalidade que orienta o trabalho até hoje. “Tínhamos o desejo de fazer diferente, algo comum a arquitetos recém-formados, mas que, no nosso caso, ganhou forma concreta com a afirmação das cores, das formas e de ideias pouco usuais no mercado local”, relataram.
O nome do estúdio também carrega essa intenção simbólica. Os fundadores contam que “Mangaba” foi escolhido por remeter imediatamente ao estado de origem e traduzir a proposta de atuar em diferentes contextos sem perder o vínculo com as raízes. Cayo lembra que a inspiração veio das mangabeiras que existiam na casa de sua família no litoral sul sergipano. “O imaginário de melhor lugar do mundo ficou profundamente ligado àquele cenário de infância, e é exatamente essa sensação que queremos transmitir nos projetos”, disse.
Eles destacam ainda que a origem no interior trouxe dificuldades iniciais de inserção profissional, superadas com apoio da rede acadêmica. “Nosso principal meio de acesso ao mercado foram os professores. Ao nos destacarmos nas atividades, foram eles que nos conectaram a contatos, estágios e oportunidades”, afirmaram, atribuindo à formação universitária papel decisivo na trajetória.
Linguagem e atuação
No início, o estúdio atuava principalmente em projetos arquitetônicos completos, residenciais, comerciais e corporativos, mas, com a consolidação no mercado e a expansão para a capital, passou a concentrar grande parte da demanda em reformas de interiores, sobretudo em apartamentos. Segundo os arquitetos, essa frente permitiu aprofundar a pesquisa estética e técnica que caracteriza a identidade autoral do grupo.
Um dos elementos centrais dessa linguagem é o uso expressivo das cores. “Entendemos as cores como ferramentas capazes de responder a demandas emocionais, funcionais e simbólicas dos clientes”, explicaram, ressaltando que a escolha cromática nunca é apenas decorativa, mas parte estratégica da concepção espacial. Outro diferencial apontado é o desenvolvimento de detalhes construtivos e soluções de marcenaria personalizadas, que variam conforme cada projeto.
Desde 2024, o coletivo também vem se aproximando da expografia, área que dialoga diretamente com a proposta inicial de integrar arquitetura e design. “Esse campo amplia nossas estratégias e permite explorar a estética de forma mais livre, além de refletir sobre reuso, desmontagem e destino dos materiais”, disseram. Para eles, a seleção para a Bienal confirma a consistência desse caminho e fortalece essa vertente experimental.
Os profissionais afirmam que sempre acreditaram na força conceitual da própria identidade criativa, mesmo diante da concorrência nacional. “Acreditamos que o vínculo afetivo presente nas nossas propostas cria conexão imediata com o público e com os avaliadores. Ter nossa história materializada no espaço é uma das principais forças do projeto”, declararam.
Relicário afetivo
A ideia de inscrever “Relicário de Vóinha” surgiu quando colegas enviaram o edital do concurso e destacaram a afinidade entre a proposta curatorial e a produção do estúdio. O projeto foi desenvolvido a partir de um programa básico de moradia e da criação de um casal fictício de clientes, construído com base no imaginário coletivo das equipes e nas lembranças pessoais ligadas às avós. “O desafio foi construir uma narrativa contemporânea, não caricata. Não queríamos uma casa para nossas avós, mas um espaço que evocasse a memória delas olhando para o futuro”, explicaram.
Segundo os autores, a figura da avó foi escolhida por representar mulheres que sustentam a dinâmica doméstica e organizam afetos e rotinas familiares. “Compreendemos nossas avós como agentes de organização emocional, do espaço e da vida, atribuindo ao ambiente dimensões imateriais abraçadas pela forma construída”, afirmaram. Essa perspectiva guiou toda a estrutura espacial do projeto.
O percurso arquitetônico começa pelo quintal, posicionado intencionalmente na entrada para inverter hierarquias tradicionais e valorizar esse espaço como núcleo da vida cotidiana. “O quintal sempre foi o coração da vida doméstica nas casas do interior: lugar de celebrar, cozinhar, conversar e ver o tempo passar”, disseram. A partir dele, lavanderia, cozinha e sala de jantar se articulam em sequência integrada que privilegia convivência e continuidade visual.
O trajeto segue até áreas de descanso e introspecção e se encerra em um corredor de herança, pensado como espaço de pausa e memória. “Transformamos a memória em espaço, cultura em percurso e herança em modo de viver”, resumiram. Para a equipe, levar um projeto com raízes tão afetivas a um evento nacional é compartilhar uma história coletiva. “É afirmar que memória, cuidado e cultura popular também são temas centrais da arquitetura contemporânea”, concluíram.
Formação e reconhecimento
Representar o estado na Bienal é descrito pelos arquitetos como conquista simbólica e responsabilidade profissional. “É uma honra mostrar que a produção arquitetônica sergipana é potente, sensível e contemporânea, mesmo nascendo fora dos grandes eixos”, afirmaram. Eles ressaltam que apresentar o trabalho em escala nacional amplia a visibilidade sem romper com a identidade de origem. “Estar em outro contexto reforça a importância de levar nossa cultura para novas escalas”, disseram.
Giovanna Arruda destaca que sua atuação paralela no design de mobiliário contribuiu diretamente para o conceito do projeto. “O design me aproximou da escala do corpo e da memória material. Os objetos que assino são herança e observação da minha avó costureira, retrato de muitas avós que criam e bordam histórias”, explicou. Ela acrescenta que participar da Bienal tem um significado que ultrapassa o reconhecimento profissional. “Representar Sergipe é levar para o centro do debate nacional uma produção que nasce fora dos grandes eixos, mas que é rica em identidade, cultura e modos de viver. É também uma responsabilidade afetiva falar do estado que me acolheu e onde tive toda a minha formação”, afirmou.
A coordenadora do curso de Arquitetura da Unit, Ingrid Carvalho, avalia a conquista como reflexo direto da formação oferecida. “Os profissionais que integram o estúdio demonstram desde a graduação consistência teórica, sensibilidade projetual e compromisso ético. Ter egressos selecionados nesse contexto reafirma a relevância da produção acadêmica desenvolvida na instituição”, afirmou.
Ela acrescenta que o projeto representa exatamente o perfil profissional que o curso busca formar. “Reflete um arquiteto capaz de compreender o valor da memória, da cultura e das relações afetivas com o espaço, traduzindo esses aspectos em soluções contemporâneas”, observou. Para a docente, apoiar iniciativas protagonizadas por ex-alunos fortalece a relação institucional, inspira estudantes e amplia a presença da universidade no cenário nacional da arquitetura.
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