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Saúde mental no trabalho segue em alerta mesmo após recorde de afastamentos

Ansiedade e depressão permanecem como principais causas de licenças, impulsionadas por sobrecarga, precarização e estigma

às 19h33
Brasil é o segundo país com mais casos de burnout: escala 6×1 afeta saúde mental no trabalho (Foto: Freepik)
Brasil é o segundo país com mais casos de burnout: escala 6×1 afeta saúde mental no trabalho (Foto: Freepik)
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Em 2024, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) registrou 472.328 afastamentos por transtornos mentais e comportamentais, principalmente relacionados à ansiedade e à depressão. O volume, que representou um salto de cerca de 68% em relação a 2023, não foi um ponto fora da curva. Monitoramentos recentes de entidades sindicais e especialistas em saúde do trabalhador indicam que os afastamentos por saúde mental seguiram em patamar elevado nos anos seguintes, reforçando que o adoecimento psicológico no trabalho permanece como um problema estrutural no país.

Mesmo em 2026, o tema continua no centro do debate sobre relações laborais, produtividade e sustentabilidade das organizações. Pressão por metas, sobrecarga, insegurança no emprego e modelos de gestão pouco preparados seguem aparecendo como fatores recorrentes nesse cenário. Segundo a psicóloga e professora da Universidade Tiradentes (Unit), Ana Karolina Silveira, é preciso diferenciar o estresse diário de um adoecimento psicológico mais profundo. 

“A relação do sujeito com o trabalho hoje está muito ligada ao lugar social que ele ocupa, muitas pessoas se identificam e se definem pelo cargo que ocupam e pelas demandas profissionais cotidianas. Nesse contexto, frisar que o estresse é inevitável é apenas reconhecer uma realidade, o que diferencia o estresse comum de um processo patológico é o comprometimento da vida pessoal e da capacidade de descanso”, explica.

Ana observa que, no estresse patológico, surgem sintomas como dificuldade de sono, irritabilidade constante e pensamentos sempre centrados no trabalho, mesmo fora do expediente. “O descanso deixa de ser regenerador. A pessoa tira férias e volta mais cansada, e ao final de semana já está exausta, ou seja, o adoecimento vai além da rotina pesada: ele interfere na recuperação física e emocional do trabalhador”, contextualiza.

Sobrecarga e romantização da exaustão 

A psicóloga aponta a sobreposição de fatores organizacionais e culturais como causas centrais do aumento dos casos de ansiedade e depressão entre trabalhadores. “Vivemos uma romantização da exaustão, onde existe a ideia de que ser produtivo continuamente, inclusive no tempo de descanso, se tornou um valor. Nessa lógica, quem não está sempre ativo tende a sentir culpa”, ressalta.

Esse quadro é potencializado por gestões despreparadas e competitividade excessiva, onde líderes muitas vezes valorizam e reiteram o mito de que o “bom funcionário” é aquele que está sempre sobrecarregado. “Essa dinâmica transforma a cultura organizacional em um fator de adoecimento: não se trata apenas de uma pressão individual, mas de uma pressão institucionalizada que permeia o ambiente de trabalho”, pontua.

Quando a precarização se soma a esses fatores, com insegurança financeira e medo de perder o emprego, muitos trabalhadores continuam exercendo suas funções mesmo diante de sintomas claros de adoecimento. “Eles só se afastam quando chegam ao ápice da exaustão, quando não têm mais escolha”, diz a psicóloga, destacando o papel da precarização como elemento que amplifica a vulnerabilidade emocional do trabalhador.

Resiliência distorcida 

Um dos pontos levantados por Ana Karolina é a distorção do conceito de resiliência nas relações laborais. “Existe uma ideia de que, independentemente das condições, o sujeito precisa dar conta de tudo, isso inferioriza o sofrimento e responsabiliza individualmente o trabalhador por questões que têm raízes estruturais e coletivas”, afirma.

A psicóloga destaca que, apesar de fatores individuais influírem na experiência de adoecimento, eles não são suficientes para explicar o fenômeno sem considerar o contexto organizacional e social em que o trabalhador está inserido. “Questões como desigualdades de gênero também entram no debate: enquanto homens ainda sofrem pressões para não demonstrar fragilidade, mulheres frequentemente acumulam múltiplos papéis, profissional, doméstico e familiar, sem o devido reconhecimento ou suporte”, revela.

Estigma e rede de apoio

Ao comentar o estigma ainda associado à busca por ajuda psicológica, Ana Karolina afirma que, embora a psicologia e a psiquiatria tenham ganhado espaço nos últimos anos, a compreensão e acolhimento no ambiente de trabalho ainda são insuficientes. “Muitas empresas acreditam que trabalhar saúde mental é apenas fazer campanhas pontuais, mas a promoção da saúde emocional deve ser contínua e integrada às práticas organizacionais”, observa.

Quanto à atuação empresarial, a psicóloga aponta que lideranças preparadas para lidar com pessoas e um ambiente organizacional seguro são cruciais para a prevenção do adoecimento. Para ela, não é necessário ter um psicólogo dentro da empresa para ser humanizada, mas sim investir em práticas de escuta, acolhimento e suporte.

Legislação, atendimento público e mudança cultural

Sobre a atualização da NR-1, Norma Regulamentadora que passou a incluir riscos psicossociais, Ana Karolina reforça a importância da proteção legal do trabalhador. “A norma exige que as empresas identifiquem fatores como assédio, sobrecarga e clima organizacional, transformando a saúde mental em um aspecto normativo e fiscalizável, o que representa um avanço significativo para os direitos trabalhistas”, diz.

No que se refere à rede pública de saúde, a psicóloga reconhece a importância do Sistema Único de Saúde (SUS), dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e das Unidades Básicas de Saúde (UBS), mas explica que a demanda crescente ainda supera a capacidade de atendimento, devido à falta de recursos, profissionais e investimentos públicos. “Mudanças profundas na cultura organizacional exigem tempo e consistência. Falar sobre o tema já é um primeiro passo muito importante”, conclui.

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