A queda na procura por cursos de Engenharia tem mobilizado instituições de ensino superior em todo o país. Mudanças tecnológicas aceleradas, novos modelos de aprendizagem e as transformações no mercado de trabalho têm desafiado universidades a repensar práticas, metodologias e a relação com estudantes. Neste contexto, a Universidade Tiradentes (Unit) avança em um processo de análise e reestruturação que busca compreender causas, identificar oportunidades e propor caminhos para tornar as engenharias mais atraentes às novas gerações.
Como parte dessa estratégia, a instituição recebeu o professor José Carlos Pinto, referência nacional com ampla trajetória acadêmica e profissional. Com formação de doutorado e pós-doutorado, experiência em gestão de instituições do Rio de Janeiro, atuação como presidente da COPPE/UFRJ, estágio doutoral nos Estados Unidos e reconhecimento internacional por pesquisas em reações poliméricas, o especialista passou a atuar como consultor da Unit. Durante sua primeira visita, realizou o “kick-off” do projeto, apresentou perspectivas sobre o futuro das engenharias e iniciou conversas com docentes, coordenação, Núcleo Docente Estruturante (NDE) e estudantes.
Diagnóstico e modernização curricular
De acordo com o diretor acadêmico da Unit, Marcos Wandir Nery Lobão, o movimento surge de uma decisão da vice-reitoria em aprofundar discussões sobre novos modelos de ensino dentro do Grupo Tiradentes. Segundo ele, esse diagnóstico inicial tem como objetivo compreender os motivos da baixa procura pelos cursos da área, avaliando desde aspectos estruturais até práticas de ensino.
“Estamos analisando o que pode ter contribuído para essa redução: se há fragilidades nos laboratórios, metodologias pouco aderentes ou distância do mercado. Para isso, buscamos um profissional altamente qualificado, com experiência internacional e vasta atuação acadêmica”, explicou.
O consultor foi convidado para realizar uma leitura detalhada do cenário, o que inclui análise dos projetos pedagógicos, diálogo com professores, coordenações e alunos. A partir desse levantamento, será possível mapear pontos de melhoria e propor um processo de reconstrução e atualização dos cursos.
Engenharias para o futuro
Wandir destaca que o trabalho envolverá reformulação curricular, fortalecimento da relação com o mercado e avaliação da infraestrutura dos laboratórios e das plataformas digitais utilizadas. Ele ressalta que o objetivo não é apenas modernizar, mas garantir que a formação esteja alinhada às melhores práticas nacionais e internacionais.
Entre as orientações estruturadas, está a continuidade do uso da Aprendizagem Baseada em Projetos (ABP), que será ampliada por meio de benchmarking, um processo de gestão que envolve a comparação do desempenho, processos, produtos ou serviços de uma empresa com os de outras empresas líderes ou melhores práticas de mercado. “Queremos oferecer uma matriz curricular moderna, com professores preparados e cursos que atraiam a atenção dos jovens, contribuindo para a qualificação da engenharia no Grupo Tiradentes”, reforçou.
A iniciativa também busca aproximar ainda mais o ensino das demandas reais, colocando o estudante no centro da construção do conhecimento. Conforme aponta o diretor, essa conexão deve resultar em um percurso formativo mais dinâmico, orientado à inovação e à resolução de problemas.
Complexidade crescente e novas competências
Para o professor José Carlos Pinto, a reflexão adotada pela Unit é essencial para o futuro da área. Ele explica que o volume de conhecimento disponível hoje demanda do estudante habilidades que antes não eram necessárias, especialmente em um mundo de rápidas transformações. “O que a Unit está se propondo a fazer é extremamente relevante. A engenharia precisa desenvolver competências de colaboração e aprendizagem contínua. As novas gerações têm expectativas diferentes, e, se as instituições não acompanharem, a conexão com os estudantes e com a sociedade se perde”, observou.
O professor destacou ainda que o desafio é nacional e envolve repensar modelos de aprendizagem, integrando novas linguagens, abordagens práticas e fortalecimento de ambientes de inovação. “Essa perspectiva abre possibilidades para revisitar conteúdos, criar interfaces com outras áreas e preparar profissionais mais adaptáveis”, destaca.
Potencial do parque tecnológico
Durante a visita, o professor da UFRJ também analisou a criação do parque tecnológico do Grupo Tiradentes, considerando-o um ativo estratégico. Ele acredita que, se bem estruturado e integrado aos cursos de graduação, o espaço poderá impulsionar novas formações e oportunidades de mercado na região.
“Já fui diretor de um dos maiores parques tecnológicos do país, no Rio de Janeiro, e afirmo que a infraestrutura da Unit é extremamente favorável para quem atua em inovação. Se o parque estiver conectado à graduação, pode se tornar um pilar transformador”, afirmou. Para o docente, ambientes de inovação estimulam a aprendizagem colaborativa, aproximam estudantes do mercado e ampliam a vivência prática.
O especialista reforçou, ainda, a importância de aproveitar o ambiente universitário. Ele pontuou que estudar sozinho já é possível, mas a experiência coletiva da graduação amplia repertórios e fortalece habilidades. “É fundamental participar da universidade, dos laboratórios, dos espaços de criação. Esse convívio com colegas, professores e projetos é insubstituível. Além disso, o profissional atual precisa estudar ao longo de toda a vida, ser inovador e manter-se conectado ao conhecimento”, complementou.
Empreendedorismo e aprendizagem integrada
A discussão também contou com a participação de Amon Costa Pinto, designer da Laba Consultoria em Gestão. Ele compartilhou sua trajetória acadêmica e profissional para ilustrar como metodologias mais ativas podem preparar o estudante para o mercado e para o empreendedorismo. “A proposta da Unit de investir na aprendizagem baseada em projetos me atrai muito, porque essa é uma abordagem diretamente relacionada ao empreendedorismo. Ela exige pensamento sistêmico e atuação integrada em diversas áreas, elementos fundamentais para o profissional do futuro”, avaliou.
Ao comentar sua própria experiência, Amon destacou que a conciliação entre a graduação e a abertura de sua empresa exigiu horas de estudo e dedicação, especialmente em disciplinas como planejamento de negócios e comunicação. Ele ressaltou ainda que o contato com laboratórios e organizações acadêmicas foi determinante, pois aproxima os estudantes do ambiente real dos negócios e da tecnologia.
Conexões para o futuro
Amon também incentivou estudantes a aproveitarem ao máximo a vida universitária, sobretudo as relações que se constroem nesse período. Ele explicou que essas conexões podem se tornar essenciais para o estabelecimento de parcerias e oportunidades profissionais ao longo da vida. “Buscar laboratórios, organizações acadêmicas e colegas é fundamental. Esses espaços são riquíssimos e, muitas vezes, deixam de ser acessíveis após a graduação. A universidade oferece oportunidades únicas, e aproveitá-las é o melhor caminho”, aconselhou.
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