Representar a diversidade humana com fidelidade ainda é um desafio para a tecnologia. Tons de pele mais escuros, cabelos afro, gênero e outros aspectos sociais muitas vezes não encontram espaço nos algoritmos que constroem humanos digitais em filmes, jogos ou aplicações de inteligência artificial. Foi justamente a partir de uma pesquisa sobre representação de cor de pele que alunos de Ciência da Computação e professores da Universidade Tiradentes (Unit) passaram a integrar um dos grupos internacionais mais relevantes da atualidade na área: o Countering Racial Bias in Computer Graphics.
Criado pelo professor Theodore Kim, da Universidade de Yale, o grupo reúne pesquisadores de instituições como Harvard, MIT e Columbia, além de profissionais ligados a grandes empresas como Pixar, Disney, Microsoft e Netflix. O espaço de discussão acontece dentro da SIGGRAPH, sigla para Special Interest Group on Computer Graphics and Interactive Techniques, conferência considerada a maior do mundo em computação gráfica e IA, onde surgem tendências que, mais tarde, chegam ao grande público por meio da indústria do entretenimento e da tecnologia.
O papel da SIGGRAPH no avanço da tecnologia
Segundo o professor Victor Flávio de Andrade Araújo, da Unit, a importância da SIGGRAPH pode ser medida pelo impacto histórico de suas publicações. “Foi nesse evento que a NVIDIA, no início dos anos 2000, apresentou o primeiro algoritmo para simular pele humana digitalmente. O problema é que o modelo funcionava bem apenas para tons claros. Desde então, praticamente não se viam artigos sobre pele escura, cabelos afro ou diversidade de gênero. Essa discussão só começou a ganhar força depois de 2020. O evento dita tendências globais: o que é mostrado lá tende a se tornar referência em toda a indústria”, explica.
Como funciona a rede internacional
Foi nesse contexto que nasceu o Counter.Graphics, uma rede internacional de pesquisadores focada em combater vieses raciais e sociais na computação gráfica. O ingresso é automático: sempre que um artigo, workshop ou apresentação sobre o tema é aceito no SIGGRAPH, os autores são convidados a integrar o grupo. “Participam não apenas professores, mas também alunos de graduação e pós-graduação, além de profissionais ligados a empresas de ponta. As reuniões acontecem de forma remota, por meio de workshops periódicos no Discord, em que discutimos avanços, desafios e novas direções para as pesquisas”, explica Flávio.
Entre os temas abordados estão não só a representação de cor de pele e cabelo, mas também gênero, peso corporal e até mesmo questões ambientais, como o consumo de energia em algoritmos. A proposta é ampliar o debate dentro da comunidade científica e pressionar a indústria para repensar os padrões atuais.
A contribuição da Unit
A inserção da Unit nessa rede global é fruto direto das pesquisas conduzidas pelo professor Victor Flávio e seus alunos. Em 2022, durante o doutorado, ele publicou um dos primeiros artigos da conferência sobre viés de gênero em bebês virtuais. Este ano, o trabalho sobre representação de tons de pele levou a universidade a ser citada no Counter.Graphics, posicionando Sergipe dentro de uma discussão de alcance mundial.
“Nosso estudo mostra que ainda existem falhas significativas na forma como os algoritmos reproduzem tons de pele mais escuros. Não apresentamos a solução final, mas comprovamos que o problema é real e precisa ser enfrentado. Só essa constatação já gera impacto na comunidade, porque força a indústria a se mover, mesmo que, por enquanto, ela tente apenas mitigar e não resolver definitivamente”, afirma o professor.
Apesar de não ter conseguido viajar para Vancouver por questões de visto, Flávio garante que o trabalho foi exposto na conferência e ganhou visibilidade internacional. “Cada pesquisa aceita no SIGGRAPH tem peso. Um trabalho recente do professor Theodore Kim sobre cabelos afro viralizou nas redes sociais, mostrando como a discussão ultrapassa a academia e chega ao público geral. O mesmo acontece com nossas pesquisas: além do impacto científico, existe um impacto social e de representatividade que não pode ser ignorado”, destaca.
Impactos e próximos passos
Para os alunos da Unit, participar de uma rede internacional desse porte significa acesso direto ao que há de mais avançado na área. “Estamos mais próximos da comunidade do SIGGRAPH, onde estão as pesquisas de ponta da computação atualmente. Isso abre portas para futuras parcerias, colaborações e amplia as possibilidades de atuação acadêmica e profissional dos estudantes”, comenta Flávio.
O professor também faz parte do comitê organizador do Countering Racial Bias, participando ativamente da definição dos rumos do workshop dentro da conferência. A expectativa é que, em breve, os encontros evoluam para apresentações de trabalhos, o que permitirá que estudantes também participem de forma mais ativa.
Embora ainda seja cedo para medir todos os efeitos dessa inserção, Flávio acredita que os impactos já são visíveis. “Cada novo artigo aceito é um passo a mais para quebrar paradigmas. Se o grupo continuar crescendo, a tendência é que essas discussões se tornem parte permanente da agenda da computação gráfica. E isso tem potencial de mudar a forma como a indústria representa a diversidade humana no futuro”, conclui.
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