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Entre paredes e memórias: como manter a história viva na arquitetura sem abrir mão da modernidade

Arquiteto aponta caminhos para equilibrar inovação e preservação cultural dentro de casas e apartamentos

às 20h42
Foto: Banco de Imagem por josemiguelsangar
Foto: Banco de Imagem por josemiguelsangar
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Casas com azulejo antigo na cozinha, portas de madeira originais ou aquele piso que já passou por várias gerações ainda fazem parte da realidade de muitos imóveis, inclusive os que já passaram por reforma. Em vários casos, esses elementos são mantidos mesmo com a inclusão de soluções mais modernas, como iluminação planejada, novos revestimentos e mudanças na disposição dos ambientes. Essas escolhas vão além da estética. Elas ajudam a preservar características que contam a história de quem viveu ali e do período em que aquela construção foi feita. Ao mesmo tempo, cresce a pressão por atualizar os espaços, seja por funcionalidade ou por influência de tendências. É nesse ponto que surge a dúvida: como modernizar uma casa ou apartamento sem abrir mão da sua identidade histórica?

Conforme explica o arquiteto e urbanista e professor da Universidade Tiradentes (Unit), Rooseman de Oliveira, a arquitetura residencial é, por si só, um reflexo da sociedade que a construiu. “Revela através da memória daqueles que viveram o espaço residencial, e dos materiais e técnicas construtivas que apresentam o modo de erguer suas edificações”, afirma. Nesse sentido, cada escolha construtiva, do tipo de telha ao desenho das esquadrias, carrega referências culturais e sociais. Ao modificar ou eliminar esses elementos, perde-se mais do que estética. “Perde-se o patrimônio arquitetônico, a memória, a história e a cultura social de uma determinada comunidade que construiu um espaço e habitou um lugar em um determinado contexto temporal”, completa.

Apesar desse valor simbólico, o especialista alerta que há uma tendência preocupante na arquitetura contemporânea. “Ainda predomina a padronização sorrateira e sutil, disfarçada de modernidade, principalmente em novas edificações residenciais”, observa. Esse movimento, muitas vezes impulsionado por modismos, contribui para a homogeneização dos espaços e para o apagamento de características regionais. Além disso, segundo ele, um dos principais equívocos está na forma como o passado é percebido. “Ainda prevalece o pensamento de que o antigo é feio, ultrapassado e descabido. Isso cria uma visão de supervalorização do novo e da novidade, em detrimento do bem antigo e do patrimônio histórico consolidado”, elenca.

Preservação ativa

Para evitar esse cenário, a preservação precisa ser tratada como uma ação coletiva e contínua. De acordo com Rooseman, isso passa por diferentes frentes. “Através de uma legislação urbana que valoriza o patrimônio arquitetônico, de processos massivos de conscientização, de incentivos fiscais e de investimentos públicos”, destaca o professor. Além disso, reconhecer o valor técnico das construções antigas também é fundamental. Muitas vezes, elas apresentam características que já não são facilmente reproduzidas. “Características estilísticas que remetem a um período da história urbana e, sobretudo, técnicas construtivas cuja mão de obra qualificada já não se encontra com facilidade”, explica.

Engana-se quem pensa que preservar significa congelar o tempo. A modernização é possível e até necessária, desde que feita com sensibilidade. Segundo ele, intervenções contemporâneas podem coexistir com estruturas históricas, desde que respeitem o que já existe. “As intervenções devem focar na remodelação da estrutura espacial em função das necessidades contemporâneas, mas sem negar a preexistência dos elementos arquitetônicos da edificação original”, pontua.

Esse diálogo entre tempos diferentes pode resultar em espaços mais ricos e personalizados, nos quais a história não é apagada, mas incorporada ao cotidiano. Outro ponto essencial está na escolha dos materiais. A tecnologia disponível hoje permite integrar o passado ao presente de forma mais harmônica. “Reconhecendo a tipologia de materiais utilizada no passado, é possível aplicar novos materiais e acabamentos que permitam o efeito de unidade e continuidade”, destaca. Ele ressalta que há inovação suficiente no mercado para facilitar essa conexão, mas que ela nem sempre é aproveitada. “Essa tecnologia deixa de ser melhor utilizada quando é ignorada sua capacidade de propiciar interação entre os materiais históricos e os acabamentos contemporâneos”, ressalta Rooseman.

Escolha cultural

Preservar a identidade de uma casa ou apartamento é uma escolha cultural, não uma questão estética. “É uma escolha de valorização da cultura de uma sociedade, representada pela arquitetura de suas edificações, o que se configura como uma postura cultural resultante de uma conscientização político-patrimonial”, pontua. Para quem deseja reformar sem abrir mão dessa essência, a orientação é buscar orientação especializada. “Contrate um arquiteto e urbanista que apresente propostas atuais sem perder a identidade histórica da edificação e dos futuros moradores, mesclando elementos e materiais recentes com ideias que valorizam seus anseios e necessidades memoriais”, recomenda.

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