Como o Direito e a Psicologia podem se conectar e atuar em conjunto, complementando-se um ao outro? Estas questões são o tema da Semana de Psicologia, promovida pelo curso de Psicologia da Universidade Tiradentes (Unit). Ela vai até esta sexta-feira, 10, reunindo cerca de 600 inscritos, entre estudantes de Psicologia da Unit e de outras instituições de ensino. Com o tema “Psicologia Jurídica: Conexões entre Subjetividade, Direito e Interdisciplinaridade”, ele busca promover reflexões críticas e atualizações sobre as contribuições da Psicologia Jurídica no cenário contemporâneo, discutindo suas interfaces com o Direito e outras áreas do conhecimento. A abertura aconteceu nesta quarta-feira, 8, no Porto Farol Eventos, em Aracaju, e foi transmitida on-line para os alunos e professores do curso de Psicologia no Campus Itabaiana.
Em sua saudação aos participantes, o pró-reitor de Graduação e Extensão, Ronaldo Linhares, representou o reitor Jouberto Uchôa de Mendonça e destacou a importância da atuação conjunta entre a Psicologia e o Direito para lidar com as mudanças e desafios da sociedade atual. “Eu espero que, no final da semana vocês olhem para trás e se apercebam do quanto vocês avançaram e aprenderam nesse encontro. Que esse evento possa contribuir para que tenhamos alunos de psicologia, futuros profissionais e já profissionais para repensar essa sociedade adoecida que precisa tanto de vocês. Agora, mais do que nunca, ela precisa tanto desse olhar cuidadoso e acarinhador para esse sujeito que está nas incertezas, nas dúvidas, nos sofrimentos, nas angústias, mas também nos momentos de felicidade”, disse o professor.
O momento principal da abertura foi a palestra da pela psicóloga Vivian de Medeiros Lago, que atua como assistente técnica em Varas de Família da Comarca de Florianópolis (SC) e também é professora nos cursos de pós-graduação em avaliação psicológica e parentalidade do IPOG (Instituto de Pós-Graduação e Graduação). Referência nacional na área de Psicologia Jurídica, ela é autora do Sistema de Avaliação do Relacionamento Parental Revisado e Ampliado (SARP-R) e falou sobre as Perícias Psicológicas Forenses.
De acordo com Vívian, uma das situações que mais demandam a atuação do psicólogo no mundo jurídico é a do Direito de Família, principalmente em casos que envolvem disputas entre casais separados pela guarda dos filhos. O mesmo nível de demanda também aparece na psicologia criminal envolvendo a análise de personalidade dos envolvidos em cada caso. Para ela, quem for atuar nesta área precisa desenvolver algumas habilidades que vão muito além da técnica profissional.
“Lidar com essas questões exige uma habilidade de escuta muito importante e também a de focar-se nas questões técnicas, sem se deixar levar tanto pela subjetividade. O futuro psicólogo que for atuar nessa área tem que desenvolver um trabalho ético e técnico. E tem que estar sempre estudando, porque se a lei muda, a gente tem que se atualizar, e se surgem novos testes na avaliação psicológica, tem que estar correndo atrás. Quem for atuar nessa área tem que ser alguém que não tenha a preguiça de estudar”, diz a psicóloga.
Interesse e demanda
Segundo a professora Jamile Santana Teles Lima, presidente da Semana de Psicologia, a ideia de trazer as relações entre a Psicologia e a área jurídica para o evento se deve sobretudo ao interesse e à curiosidade de boa parte dos alunos, além de sua relevância para o acompanhamento e resolução das questões inerentes aos processos em tramitação, tanto nas áreas cíveis quanto nas criminais.
“É um tema refinado e necessário, porque a psicologia jurídica está crescendo no Brasil, devido à sua importância e à necessidade para análise comportamental diante do sistema judiciário. A gente precisa ter uma percepção ampliada da psicologia jurídica. Ou seja, vamos compreender a subjetividade da pessoa que comete o crime, da pessoa que é vítima, quem são os atores jurídicos, como a gente chama. Nesse sentido, a psicologia jurídica, nesse sentido, vai refinar a análise do comportamento, da personalidade e gerar dados para ser anexados nos laudos psicológicos, nos autos do processo e auxiliar a decisão dos operadores do Direito”, explica Jamile Teles.
Para a professora Jamille de Araújo Figueiredo, coordenadora do curso de Psicologia, as duas áreas se conectam na medida em que a Psicologia pode ser uma importante aliada na humanização do Direito. “Isso não apenas no acolhimento a vítimas, mas também a pessoas que cometem crimes, e no sentido de compreender esses perfis, de avaliar e de auxiliar os operadores de direito na tomada de decisões pautadas em avaliações, que são processos éticos, científicos, feitos com profundidade. E a partir de técnicas, inclusive do uso de instrumentos que são privativos do psicólogo, a exemplo de testes psicológicos que vão fundamentar a elaboração de laudos e perícias”, detalha.
A coordenadora destaca ainda que a área está abrindo grandes possibilidades de atuação profissional no âmbito da Psicologia, o que tem instigado cada vez mais os estudantes. “Não só os que já fazem psicologia, como os que querem fazer, cada vez mais têm se sentido atraídos por esse contexto e buscado o curso, já pensando em uma atuação no âmbito jurídico e também pela demanda social cada vez maior. A gente tem aí grandes possibilidades de atuação profissional ou de proporcionar carreiras consolidadas para os nossos alunos no âmbito da Psicologia Jurídica”, completa.
Uma das participantes que se interessaram por essa área foi a estudante Laura Yuri de Almeida Vasconcelos Sansoni, aluna do segundo período de Psicologia. Ela conta que sempre se interessou pela psicologia criminal, por conta de sua curiosidade em entender as complexidades da mente humana. “Já é entendido que de 10%, só 3 dos criminosos são aqueles que realmente apresentam algum tipo de transtorno de personalidade. Os que estão presos hoje, que cometem realmente os crimes, não são sãos. Isso é o que me chama a atenção. Quero entender como funciona a mente deles”, diz ela, que está participando de seu segundo congresso acadêmico no curso. “Eu acho que ele vai ser o divisor de águas, pra ver se eu realmente me encaixo nessa área”, confessa Laura.
Programação
Ao todo, os alunos participantes da Semana terão cerca de 35 atividades no Campus Farolândia, entre oficinas, palestras, mesas-redondas e exibição de filmes, discutindo temas como mediação de conflitos, vício em jogos de azar, ressocialização de adolescentes, orientação racial e violência de gênero, entre outros. Ao longo da Semana de Psicologia da Unit, também serão apresentados cerca de 40 trabalhos elaborados a partir de pesquisas científicas e projetos de extensão desenvolvidos pelos alunos, através da metodologia ABP (Aprendizagem Baseada em Projetos).