Atenção, carinho, cuidado, empatia, paciência, perseverança, dedicação. Todas estas habilidades ajudam a incluir e desenvolver pessoas que têm algum tipo de transtorno ou deficiência mental ou cognitiva. E também proporcionam os mesmos aprendizados e crescimentos a quem lida com estas pessoas. São elas que marcam e embasam um projeto de extensão realizado desde 2017 pelos alunos do curso de Educação Física da Universidade Tiradentes (Unit): o Adapte Mais. Ele promove atividades semanais e gratuitas de integração e reabilitação motora para crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Atualmente, o projeto atende a 18 crianças e adolescentes com autismo nível 3 (também chamado autismo severo), deficiência intelectual e síndrome de Down. São condições que se caracterizam por comportamentos restritivos e repetitivos, além de dificuldades graves nas habilidades de comunicação e relacionamento. Elas são acompanhadas por 16 estudantes de Educação Física, que monitoram e aplicam os exercícios, jogos e atividades de reabilitação, sob a orientação da professora Lisane Dantas Meneses.
Ela lembra que a criação do Adapte Mais veio em um contexto de discussões intensas sobre o papel da universidade no atendimento às mais variadas demandas da sociedade e das comunidades que vivem no entorno de cada campus. “Pensamos em um projeto no qual a universidade fizesse o papel dela de extensão. Então, pensamos no projeto Adapte Mais, que já surgiu com o objetivo de trabalhar as habilidades motoras das pessoas com deficiência, além de ser um campo de estágio e aprofundamento de conhecimento para os nossos alunos. E nele, a universidade assume esse papel de atendimento à comunidade, através da extensão. Então, é um projeto que tem vários eixos e objetivos”, definiu Lisane.
As atividades do Adapte Mais acontecem de uma a duas vezes por semana, quando as crianças e os alunos executam exercícios nas quadras do Complexo Esportivo Valquírio Costa Lima, no Campus Farolândia. Durante aproximadamente duas horas, passam pelo chamado “circuito motor”, uma série de estímulos de movimento, de equilíbrio e de raciocínio que buscam ativar, melhorar e fortalecer os reflexos e a coordenação motora. Nele, a pessoa executa tarefas distribuídas por estações, sendo que cada uma delas trabalha uma habilidade motora específica.
Lisane explica que as atividades promovem resultados pontuais e significativos para cada aluno participante. “A gente vê principalmente a melhoria das habilidades motoras dos alunos, os aspectos cognitivos e também a sociabilidade, o aumento da capacidade de convivência. O projeto atua muito nesses campos, e a gente viu melhorias significativas”, confirma a professora, acrescentando que outro impacto é o enfrentamento contra estigmas e preconceitos que ainda persistem contra os autistas e outras pessoas com deficiência. “O maior problema da sociedade hoje é a barreira atitudinal. É olhar as pessoas neurodivergentes, no nosso caso os autistas, e entender que elas são pessoas atípicas, mas podem seguir a vida como outra pessoa qualquer, dentro das suas possibilidades. Ainda se coloca nelas um termo de ‘incapaz’, e isso eles não são”, defende a orientadora.
Novos olhares
A aluna Diana de Oliveira Santos, do oitavo período de Educação Física Bacharelado, participa do projeto Adapte Mais desde 2024, quando entrou nele através da Monitoria e passou dois períodos acompanhando as intervenções da professora Lisane. “Eu entrei para monitoria com a disciplina de dança, jogos e brincadeiras e por uma inconsistência de horário, eu acabei sendo realocada para poder assessorar e dar suporte a Lisane nesse projeto. Eu já conhecia pelas experiências que outros colegas já tiveram no estágio, mas eu tive o primeiro contato físico através da monitoria”, lembra ela, que tem primos com o transtorno do espectro autista, mas ainda não tinha uma vivência prática da educação física na interferência que ela tem durante o desenvolvimento motor dessas crianças.
Para Diana, o contato com o Adapte Mais foi um “abrir de olhos” para essa área. “Me abriu um olhar no sentido mais humano, ter mais empatia, da inclusão de fato, de a gente ver a necessidade, pegar as práticas e adaptá-las às necessidades de cada criança. Algumas são não-verbais, outras são verbais, outras são extremamente comunicativas, outras mais retraídas. Através desse olhar, a gente consegue adaptar e trazer outras experiências de fora e conseguir juntar e unir para que algo flua de uma forma mais tranquila. A gente acaba tendo um pouco mais de cuidado na forma como a gente direciona-se às pessoas, tanto na nossa fala, tanto nas nossas ações e principalmente no cuidado”, define a aluna.
Emanuel, de 15 anos, é um dos que se dedicam com mais entusiasmo aos exercícios propostos pelos alunos, contando sempre com a companhia do pai, o radialista e policial militar Salomão Silva. Ele relata que o Adapte Mais foi “um divisor de águas” para o desenvolvimento do filho, por ser um espaço em que ele pode fazer atividades físicas orientadas, e também por ser um serviço gratuito, aberto à toda a comunidade.
“Não é todo dia que a gente encontra hoje esse tipo de atividade para os nossos filhos. Hoje, já é comprovado cientificamente que a atividade física colabora com o desenvolvimento de outras potencialidades da criança, como a fala, o espírito de prontidão, de atenção, de corresponder aos comandos. Tudo isso favoreceu a ele. Nos dias que ele faz atividade física aqui e vai na fonoaudiologia, ele rende mais do que o dia que ele vai só na fonoaudióloga. A gente percebe que a atividade física colabora também com essa questão da comunicação, da atenção na própria escola”, atesta Salomão.
Cuidando de quem cuida
Recentemente, o Adapte Mais passou a ter o apoio do curso de Psicologia, que participa com um grupo de seis alunas. Sob a orientação do professor Roberto Luís Barreto, elas acolhem e desenvolvem outras atividades para as mães e responsáveis pelas crianças atendidas, no mesmo horário em que os filhos estão na quadra, fazendo os circuitos. Este apoio atende a uma reivindicação antiga das mães, que se queixam constantemente das pressões e dificuldades impostas pela sociedade, pela rotina de lidar com um filho atípico e, muitas vezes, por situações da própria família.
“A proposta é dar um respiro a essas mães que são mais atípicas, de crianças autistas não-verbais. Elas têm uma vida muito exaustiva, não têm tempo para trabalhar porque a demanda é muito alta. Elas levam os filhos para a psicoterapia, para vários atendimentos psicológicos. Como elas não têm o protagonismo como mulheres, a gente está somando junto com a Educação Física para dar esse momento de respiro para elas. Um momento que elas possam se sentir mulheres e protagonistas da sua própria vida”, explica a aluna Juliadna Sebastião, do oitavo período de Psicologia.
As alunas fazem uma série de dinâmicas com as mães, buscando promover o resgate do protagonismo e da identidade delas. Uma das mais marcantes foi durante o Outubro Rosa, quando elas passaram por sessões de massagem e de embelezamento, como forma de estimular o autocuidado. “A gente sentiu no início uma grande resistência delas, porque a maioria está no papel de cuidar, não de ser cuidada. E na medida em que elas foram se abrindo, elas chegaram ao final florescendo, resgatando memórias do passado, de como elas eram antes de serem mães. Foi muito bacana acender nelas a vontade de se cuidar, de olhar para si e ser protagonista da própria história”, relembra Juliadna.
Para a dona de casa Ana Paula dos Santos Lira, mãe de Rian Gustavo, 12 anos, o apoio psicológico prestado pelo Adapte Mais foi “um grande alívio”. “Foi muito importante e necessário, porque as psicólogas nos ajudam no nosso dia-a-dia. Às vezes, a gente chega aqui triste e desanimada. Aí, conversamos com elas, contamos os nossos problemas e elas nos ajudam. Como agora a gente também está aprendendo a fazer biscoito, que é uma profissão se a gente quiser vender. Então, tudo isso é muito importante para as mães e para as crianças também. Foi uma necessidade que a gente pedia e via que era necessário”, disse Ana Paula, no meio de uma atividade no Centro Gastronômico, onde as mães e as alunas aprenderam a fazer doces e biscoitos. Uma dinâmica que, para elas, deixou um gostoso sabor de autoestima e esperança.
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