Uma das mais importantes instituições de formação cultural e artística do nosso estado chegou aos seus 80 anos de existência e de atividades: o Conservatório de Música de Sergipe (CMSE), fundado em 28 de novembro de 1945. Ao longo desta jornada, ela contribuiu para o surgimento e desenvolvimento de talentos que se destacaram tanto na música popular quanto na erudita, além de fornecer um importante apoio na educação básica formal, na condição de integrante da rede pública estadual de ensino.
O seu surgimento está ligado ao contexto educacional das décadas entre 1930 e 1950, quando o ensino de música era amplamente difundido nas escolas brasileiras. Na época, o então governo Getúlio Vargas, através de um projeto nacional liderado pelo célebre maestro e compositor Heitor Villa-Lobos (1887-1959), instituiu o ensino obrigatório do Canto Orfeônico, como forma de promover e desenvolver o bom gosto musical, os sentimentos de civismo e a identidade nacional. A disciplina já existia desde 1890, sob a inspiração do modelo educacional francês, mas foi impulsionada durante o Estado Novo varguista.
O Conservatório surgiu com o nome Instituto de Música e Canto Orfeônico de Sergipe (Imcose), por um decreto do então interventor Hunald Santaflor Cardoso (1894-1973). No texto, o decreto determinava que seu objetivo era “[…] preparar e diplomar em curso especializado o professorado de música e canto orfeônico imprescindível às necessidades da instituição pública local”. Seu fundador e primeiro diretor foi o maestro Genaro Plech (1907-1972), que se destacava como pianista e professor catedrático da cadeira de música da antiga Escola Normal (atual Instituto de Educação Rui Barbosa).
Com a extinção da disciplina de Canto Orfeônico, em 1961, por força da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), o Imcose passou a ser denominado Instituto de Música de Sergipe (IMS). A nomenclatura atual, Conservatório de Música de Sergipe (CMSE), veio em março de 1971, no governo João Andrade Garcez, quando também foi construída e inaugurada a sua sede própria, na esquina das ruas Boquim e Santa Luzia, centro de Aracaju. Antes, a instituição havia passado por outros locais cedidos provisoriamente, como a Escola Normal (na atual Rua do Turista) e o antigo Tribunal da Relação (atual Memorial do Poder Judiciário, na Praça Olímpio Campos).
“A proposta pedagógica da Instituição modificou-se ao longo do tempo, acompanhando as alterações pedagógicas vigentes no Brasil até tornar-se Conservatório de Música de Sergipe, com uma proposta ampliada de cursos voltados a prática instrumental, à formação técnica e criação de grupos musicais”, explica Kadja Emanuelle Araújo Santos, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Tiradentes (PPED/Unit) e atual coordenadora pedagógica do CMSE.
A trajetória do Conservatório sempre esteve ligada à rede pública estadual de Educação e na condição de Curso Técnico Profissionalizante, apesar de ficar um período vinculada à então Secretaria de Estado da Cultura, durante a década de 1990. Atualmente, o CMSE pertence à Secretaria Estadual de Educação e Cultura de Sergipe (Seduc) e passou por uma grande e recente reforma de sua sede, que reativou a Sala de Concertos Villa Lobos. Em seu processo seletivo mais recente, foram mais de 3.500 inscritos para cerca de 600 vagas. Já os seus perfis nas redes sociais somam mais de 16,5 mil seguidores.
Presença na memória
De acordo com Kadja, o Conservatório se destaca nos últimos anos por ser uma instituição de referência em ensino musical de Sergipe, em uma realidade na qual nem todas as instituições de ensino musical ofertam a formação técnica gratuitamente. São 18 habilitações em instrumentos e canto, sendo todos regulamentados e certificados pelo Ministério da Educação (MEC).
“O CMSE também se destaca pela oferta de Cursos de Formação Musical para Iniciantes e Oficinas de Musicalização, o que torna possível a aprendizagem inicial de quem nunca estudou música e contribui com a formação integral de crianças. Todos os professores possuem formação específica em música. São profissionais de excelência, com experiência na cena musical e/ou na área acadêmica. É um dos aspectos que atrai os estudantes que desejam a profissionalização na área. Além disso, promove recitais, concertos, workshop e masterclass, contribuindo para a formação de público e a consolidação da cena musical sergipana”, detalha a doutoranda.
Outro ponto destacado na trajetória do Conservatório vai além da sua função educativa e cultural: é a sua presença na história social sergipana e na memória afetiva de seus alunos atuais e egressos. Uma das trajetórias que mais se destacam é a da professora Ester Fraga Villas-Boas, que é professora do PPED/Unit há 20 anos. Ela foi aluna de Piano no CMSE aos sete anos, se formou em 1984, após construir uma carreira musical em Brasília (DF), voltou à instituição por mais cinco anos, como professora das disciplinas de Piano, Percepção e Teoria Musical.
Entre seus diretores e professores mais notáveis, estão nomes como os dos maestros Genaro Plech, Leozírio Guimarães, Rivaldo Dantas, Alvino Argolo e Paulo César do Prado, além das professoras Geralda Abreu, Cristina Cysne, Edna Souto Alves, Maria Olívia Silveira, Olga Andrade e Zenilde Melo Dias. Já entre os ex-alunos mais famosos, que se destacam no cenário musical sergipano, estão os cantores e compositores Antônio Rogério e Irineu Fontes, o violonista Heitor Mendonça (atual diretor do CMSE), o instrumentista Emmanuel Vasconcelos (criador do conjunto Renantique) e os pianistas Joel Magalhães, Daniel Freire e João Ventura.
O papel de um conservatório
Os conservatórios foram criados a partir de instituições de caridade que surgiram ao longo do século 16, para levar o ensino e a prática da música para órgãos e crianças pobres. O primeiro deles foi em Nápoles, na Itália, mas a principal referência surgiu no século 18, com o Conservatório de Música de Paris (França). No Brasil, o primeiro foi fundado no Rio de Janeiro, em 1848, e os principais foram surgindo ao longo da primeira metade do século passado, como o Dramático e Musical de Tatuí, no interior de São Paulo; e o Pernambucano de Música, no Recife.
Para a professora Kadja, que produziu e defendeu uma dissertação de mestrado no PPED sobre as práticas educativas adotadas no CMSE entre 1961 e 1979, o papel principal de um Conservatório é desenvolver as habilidades musicais das pessoas e formar profissionais que atuem na área, como cantores, instrumentistas, arranjadores e compositores.
“As suas contribuições envolvem o campo da cultura, das artes e da educação, pois promove a linguagem artística que é potencialmente comunicativa e socializadora. O ensino de música promove o conhecimento e a valorização de várias culturas por meio do estudo das suas obras musicais, técnicas, histórias de vida dos compositores e compreensão da história cultural de cada local. No campo da educação profissional, ela qualifica para o mercado de trabalho, contribuindo para o fortalecimento da cultura e o desenvolvimento da cadeia produtiva da música sergipana”, define a doutoranda.
com informações da Seduc/SE
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