Na tentativa de encontrar uma alternativa ao cigarro tradicional, especialmente entre jovens que não se identificavam com o tabagismo convencional, os cigarros eletrônicos passaram a ocupar um espaço crescente no cotidiano dos estudantes. Vendidos como modernos, tecnológicos e supostamente menos prejudiciais, esses dispositivos se popularizaram rapidamente em ambientes escolares e universitários. O que muitos ainda não percebem é que, longe de representar uma opção segura, o uso do vape envolve riscos importantes à saúde física e, sobretudo, à saúde mental.
O psiquiatra Fellipe Matos Melo Campos, professor do curso de Medicina da Universidade Tiradentes (Unit), explica que o aumento do consumo entre adolescentes e jovens não ocorre por acaso. “Os cigarros eletrônicos são estrategicamente comercializados com cores vibrantes, sabores atrativos, como frutas e doces, e campanhas que associam o produto à liberdade, estilo de vida e inovação. Isso os torna especialmente atrativos para adolescentes, que estão em fase de construção de identidade e pertencimento social”, afirma.
Segundo o especialista, a crença de que o cigarro eletrônico faz menos mal do que o convencional reduz a percepção de risco e facilita a experimentação. “A ideia de que se trata apenas de vapor, sem consequências relevantes, funciona como porta de entrada para o uso regular. Soma-se a isso a facilidade de acesso, muitas vezes pelo comércio informal e pela internet”, explica. Para ele, o maior problema não está apenas no primeiro contato, mas na forma como o cérebro jovem responde rapidamente à nicotina, favorecendo o uso repetido.
Nicotina, desenvolvimento e dependência
Ao ser inalado, o aerossol do cigarro eletrônico leva a nicotina rapidamente ao cérebro, estimulando a liberação de dopamina, neurotransmissor relacionado à sensação de prazer e recompensa. “Essa resposta gera bem-estar imediato e curiosidade, incentivando a repetição da experiência. No cérebro adolescente, essas vias são mais sensíveis, o que intensifica o impacto da substância”, detalha.
A dependência, de acordo com o psiquiatra, resulta da combinação entre alterações biológicas nos receptores cerebrais e fatores psicológicos e sociais. “Com o tempo, o organismo passa a exigir doses repetidas para alcançar o mesmo efeito, enquanto o uso se torna automático e acompanhado de fissura, mesmo diante de prejuízos à saúde e à vida escolar”, ressalta.
Ansiedade, humor e impactos na saúde mental
Os efeitos do cigarro eletrônico não se restringem ao sistema respiratório. Fellipe chama atenção para os impactos na saúde mental, especialmente entre jovens. Ele aponta que o uso regular está associado à piora de quadros de ansiedade, humor deprimido, impulsividade e maior propensão a outros comportamentos de risco.
“Muitos adolescentes recorrem ao vape como tentativa de aliviar desconfortos emocionais. No entanto, esse padrão tende a reforçar e agravar os sintomas psicológicos”, alerta. Estudos indicam que usuários de cigarros eletrônicos apresentam maior probabilidade de relatar ansiedade, depressão, estresse e até ideação suicida, quando comparados a não usuários. Além disso, a nicotina interfere nos sistemas de regulação do humor e do sono, criando um ciclo difícil de romper.
No ambiente acadêmico, os prejuízos também se tornam evidentes. Embora a nicotina possa provocar uma sensação momentânea de aumento do foco, esse efeito é passageiro. “Logo surgem queda de concentração, irritação e necessidade de nova tragada, o que interfere diretamente no rendimento escolar”, explica.
“O uso frequente fragmenta o tempo de estudo, interrompido por pausas constantes para vaporizar. Isso prejudica a consolidação da aprendizagem”, complementa. Pesquisas associam o consumo regular de cigarros eletrônicos a pior desempenho em tarefas que envolvem memória e atenção sustentada, especialmente entre adolescentes que não tinham histórico prévio de tabagismo.
Pressão social, redes sociais e normalização do uso
Outro fator relevante é a influência do meio social. Fellipe destaca que adolescentes são altamente sensíveis à necessidade de pertencimento, e a exposição constante ao uso do vape por amigos ou influenciadores contribui para normalizar o comportamento. “Nas redes sociais, o cigarro eletrônico costuma aparecer associado à diversão, truques com fumaça e sabores, sem menção às consequências negativas. Isso cria a impressão de que todo mundo usa e de que os riscos são exagerados”, observa.
Mesmo quando há conhecimento sobre os danos, o medo de rejeição ou de parecer deslocado tende a pesar mais do que o julgamento racional. Segundo o psiquiatra, fatores como baixa autoestima, dificuldade de dizer não e a ideia de que “só experimentar não vai fazer mal” aumentam a vulnerabilidade à pressão do grupo.
Prevenção e cuidado
Para enfrentar o problema, Fellipe defende estratégias baseadas em informação qualificada, acolhimento e desenvolvimento de habilidades sociais. Ele ressalta que ambientes escolares com regras claras, supervisão adequada e campanhas educativas fundamentadas em evidências reduzem significativamente o risco de iniciação ao uso. “A comunicação com os jovens precisa ser direta e respeitosa, sem moralismo. Ensinar formas simples de recusar o uso, incentivar vínculos com colegas que não vaporizam e criar espaços seguros de escuta são medidas eficazes”, afirma.
Nos casos de uso frequente ou sinais de dependência, o especialista enfatiza a importância da avaliação profissional. “O tratamento pode envolver psicoterapia, intervenções motivacionais, apoio familiar e, quando necessário, manejo de sintomas de ansiedade ou depressão. Investir em prevenção e cuidado precoce é fundamental para evitar que os impactos do cigarro eletrônico comprometam o desenvolvimento emocional, acadêmico e social de toda uma geração”, finaliza.
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