O aumento desenfreado dos casos de obesidade e sobrepeso gerou nos últimos meses uma corrida do público às chamadas “canetas emagrecedoras”, medicamentos injetáveis de aplicação subcutânea que aplicam substâncias agonistas do GLP-1, um hormônio presente no sistema digestivo humano. Estas substâncias, como a dulaglutida, a liraglutida, a semaglutida e a tirzepatida, são a base das principais canetas cuja comercialização já foi autorizada, como o Ozempic, o Wegovy, a Saxenda e o Mounjaro.
As chamadas “substâncias agonistas” são as que se ligam a receptores específicos do corpo, ativando-os para produzir uma resposta biológica com o objetivo de minimizar ou intensificar a ação de compostos naturais. É o caso dos princípios ativos das canetas, que agem acoplando-se ao GLP-1 e diminuem a vontade de comer.
“Esse hormônio é liberado depois que a gente come e funciona como um ‘aviso’ para o organismo: chegou alimento, vamos controlar o açúcar no sangue e a sensação de fome. Ele ajuda o pâncreas a liberar insulina quando a glicose está alta e reduz o glucagon, que é um hormônio que aumenta a glicose no sangue. Também deixa o esvaziamento do estômago mais lento e aumenta a saciedade no cérebro, o que reduz o apetite”, explica a farmacêutica e microbiologista Ingrid Borges Siqueira, professora dos cursos de Farmácia, Nutrição e Gastronomia da Universidade Tiradentes (Unit).
Ela acrescenta que, por conta deste efeito sobre a glicose, as “canetas emagrecedoras” têm indicação médica para o tratamento da Diabetes Mellitus tipo 2, da obesidade (casos em que o Índice de Massa Corpórea [IMC] é superior a 30) ou sobrepeso com doenças associadas, uso é, quando o IMC é maior que 27, mas vem acompanhado por hipertensão, colesterol alto, apneia do sono etc. “Idealmente, o uso deve ser sempre aplicado dentro de um plano de cuidado com acompanhamento e metas”, frisa Ingrid.
Os efeitos colaterais
A procura por estas canetas chama a atenção para os riscos causados tanto pelos efeitos colaterais dessas substâncias. De acordo com a professora, isso depende do medicamento e da bula, mas inclui as possibilidades de alergia ao princípio ativo. “Em geral, não se recomenda na gravidez e na amamentação sem avaliação médica. Pessoas com histórico de pancreatite ou doença gastrointestinal grave precisam de avaliação cuidadosa. Como pode causar náuseas, vômitos e diarreia, existe risco de desidratação — e, em alguns casos, isso pode afetar os rins. Além disso, há contraindicações específicas descritas em bula para alguns fármacos” alerta.
Na última quarta-feira, 18, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) confirmou que está investigando 65 mortes atribuídas a complicações de saúde atribuídas ao uso das “canetas”, além de 2.436 casos notificados destes efeitos colaterais, que vão de náuseas e diarreia até “experiências de morte iminente”. Os registros se referem ao período entre dezembro de 2018 a dezembro de 2025. A própria agência emitiu, no último dia 9, uma nota oficial na qual alerta para o risco de pancreatite aguda, “com formas necrotizantes e fatais”, além de confirmar o registro de 145 notificações de suspeitas de eventos adversos e seis suspeitas de casos com morte entre 2020 e 7 de dezembro de 2025.
Ingrid Borges esclarece que esse alerta da Anvisa tem base técnica e se apoia em notificações de casos suspeitos, consideradas fundamentais para monitorar riscos em saúde pública. “Mas a notificação, por si só, não prova que o medicamento causou o problema. Ela serve para acender o alerta e orientar que haja vigilância e avaliação clínica caso a caso”, pondera a professora. O que também é destacado na própria nota da Anvisa, ao dizer que, “apesar do alerta, não houve mudança na relação de risco e eficácia dessas substâncias”, e que “os benefícios terapêuticos ainda superam os efeitos adversos, de acordo com as indicações e modos de uso aprovados e constantes da bula”.
Estes benefícios não se aplicam às canetas falsificadas, que são vendidas no mercado clandestino a preços muito baratos, mas com substâncias desconhecidas e ineficazes, que podem agravar ainda mais as doenças. “Canetas falsificadas são um risco real por não ter a garantia nenhuma do que está ali dentro. Pode haver substância diferente, concentração errada, contaminação e armazenamento inadequado, o que muda totalmente a segurança e a eficácia. Na prática, isso pode levar a falta de controle do diabetes, perda de efeito no emagrecimento, efeitos adversos intensos (náuseas, vômitos e diarreia com desidratação), piora ou lesão renal por desidratação, reações alérgicas imprevisíveis e até infecções”, detalha Ingrid.
Aumento da procura
A discussão sobre as vantagens e riscos do uso das “canetas emagrecedoras” foi levantada pelo enorme aumento da procura e do consumo do medicamento. De acordo com o Conselho Federal de Farmácia (CFF), a importação de medicamentos como Ozempic e Mounjaro teve um aumento de 88% entre os anos de 2024 e 2025, movimentando o equivalente a quase R$ 9 bilhões e aumentando o quantitativo da balança comercial entre o Brasil e países como Estados Unidos e Dinamarca. Há ainda a expectativa de que os medicamentos comecem a ser produzidos como genéricos no Brasil ainda no começo deste ano, com o vencimento das patentes das substâncias agonistas.
Para a professora da Unit, o aumento da busca pelos agonistas do GLP-1 se explica pela busca por resultado estético rápido, a influência das redes sociais e a falsa ideia de “solução mágica” contra a obesidade ou sobrepeso. “Muita gente trata um medicamento injetável como se fosse cosmético. Soma-se a isso a desinformação e, em alguns casos, aquisição por fora do acompanhamento médico. Obesidade é uma doença crônica e precisa de tratamento sério, não de moda. É essencial educar o paciente com um termo de ciência claro: isso não é estética, é tratamento com risco e monitoramento”, afirma.
Com base neste cenário, a Anvisa adotou medidas mais rigorosas de controle na venda dos medicamentos. Desde junho de 2025, farmácias e drogarias passaram a reter a receita das “canetas emagrecedoras”, exigindo prescrição médica em duas vias, conforme o mesmo protocolo adotado na venda de antibióticos e remédios. Ingrid Borges aprova a medida, mas argumenta que outras ainda são necessárias para enfrentar o problema. “O controle de verdade é governança assistencial, a partir de serviços e consultórios precisam adotar um protocolo clínico padronizado com critérios objetivos para iniciar, ajustar dose, pausar e definir metas mensuráveis do paciente. A farmácia entra como barreira de segurança, com checagem ativa da prescrição, triagem de fatores de risco relevantes, orientação padronizada e registro”, orienta a professora.
Ela conclui afirmando que a aplicação dos medicamentos precisa de acompanhamento multiprofissional (médico, farmacêutico, nutrição e atividade física), “porque usar ‘só para emagrecer’ e sem plano definido é caminho para rebote e uso indefinido”; e que o reforço rastreabilidade e notificação de eventos adversos melhora a detecção de riscos, dando base para decisões melhores de saúde pública.
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