Dormência que não passa, uma sensação de choque nas mãos ou nos pés, cansaço extremo mesmo após pouco esforço e episódios de visão embaçada são sinais que costumam ser atribuídos ao estresse, à má postura ou à rotina acelerada. Em muitos casos, esses sintomas aparecem de forma intermitente, melhoram sozinhos e acabam sendo negligenciados. No entanto, quando persistem ou surgem de maneira súbita, podem indicar alterações importantes no sistema nervoso central e merecem atenção imediata.
Essas manifestações iniciais estão entre os alertas mais comuns da esclerose múltipla, uma doença neurológica crônica e autoimune que afeta principalmente adultos jovens. No Brasil, estima-se que mais de 40 mil pessoas convivam com o diagnóstico, segundo a Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (Abem). Apesar de ainda cercada por mitos e desinformação, a doença hoje conta com tratamentos capazes de reduzir surtos, preservar funções neurológicas e permitir que os pacientes mantenham uma vida ativa.
Uma doença autoimune
O ponto-chave, segundo o médico neurologista Helton Benevides, professor da Universidade Tiradentes (Unit), está no tempo: quanto mais cedo a doença é identificada e tratada, maiores são as chances de controlar sua progressão e evitar sequelas permanentes. É nesse contexto que o diagnóstico precoce se torna um dos principais aliados da qualidade de vida.
“A esclerose múltipla ocorre quando o próprio sistema imunológico passa a atacar a mielina, uma espécie de ‘capa protetora’ que envolve os nervos do sistema nervoso central. Essa estrutura é fundamental para que os impulsos nervosos circulem de forma rápida e eficiente entre o cérebro, a medula espinhal e o restante do corpo. Quando a mielina é lesionada, a transmissão desses sinais fica prejudicada, o que resulta em sintomas neurológicos variados. Esse ataque atrapalha a passagem das informações, fazendo com que o cérebro não consiga se comunicar adequadamente com determinadas partes do corpo”, detalha.
A depender da área afetada, o paciente pode apresentar alterações motoras, sensitivas, visuais ou de equilíbrio. Essas lesões não surgem de maneira uniforme, o que faz com que a doença tenha apresentações muito diferentes entre os pacientes. Ainda assim, há um padrão que ajuda a levantar suspeitas clínicas e direcionar a investigação.
Muitos dos sintomas passam despercebidos justamente por parecerem comuns no dia a dia. Helton chama atenção para o formigamento persistente, a sensação de choque ou queimação em braços, pernas, tronco ou rosto, frequentemente atribuídos à “má circulação” ou à postura inadequada. “Outras manifestações iniciais incluem fraqueza súbita em um lado do corpo ou nas pernas, quadro que pode até se assemelhar a um acidente vascular cerebral, além de alterações visuais, como visão embaçada, dor ao movimentar os olhos ou visão dupla. O problema é que a melhora espontânea de alguns desses sintomas faz com que a procura por atendimento especializado seja adiada”, conta.
Helton Benevides explica que, nos últimos anos, surgiram medicamentos com alta eficácia capazes de modificar o curso da doença. “Quanto mais cedo essas medicações são iniciadas, menor a chance de surtos frequentes e de perda neurológica definitiva. Na prática, isso significa reduzir o acúmulo de lesões no sistema nervoso e preservar a chamada reserva neurológica, responsável por manter funções motoras, cognitivas e sensoriais ao longo do tempo. Além disso, o tratamento precoce está associado a menos sequelas e maior autonomia no longo prazo”, reforça.
O perfil mais comum dos pacientes no Brasil inclui adultos entre 20 e 40 anos, com predominância no sexo feminino, cerca de três mulheres para cada homem. “Embora seja mais frequente em mulheres jovens que vivem em áreas urbanas, o especialista destaca que a população brasileira é altamente miscigenada, o que traz grande variabilidade nos casos diagnosticados”, pontua.
Exames e diagnóstico
O diagnóstico da esclerose múltipla segue critérios internacionais bem definidos e periodicamente atualizados, sendo a revisão mais recente de 2024. Após uma história clínica detalhada e exame neurológico minucioso, alguns exames são fundamentais para confirmar a doença e descartar outras condições. “A ressonância magnética do encéfalo e da medula espinhal é um dos principais instrumentos, pois permite identificar lesões típicas da esclerose múltipla em diferentes regiões do sistema nervoso central. Em muitos casos, também é necessária a ressonância de órbitas para avaliar o comprometimento do nervo óptico”, explica.
Outro exame importante é a punção lombar, procedimento em que se coleta uma pequena amostra do líquido que envolve o cérebro e a medula espinhal. Esse exame permite identificar sinais de inflamação no sistema nervoso e alterações que ajudam a confirmar o diagnóstico de esclerose múltipla. Os resultados também auxiliam a diferenciar a doença de outros problemas neurológicos. “Existem várias condições que podem provocar sintomas parecidos, como outras doenças inflamatórias do sistema nervoso, alterações autoimunes, deficiências graves de vitaminas e minerais, além de infecções e doenças reumatológicas. Por isso, é fundamental uma investigação médica especializada para chegar ao diagnóstico correto”, alerta.
Tratamento, avanços e impacto na qualidade de vida
Embora ainda não exista cura definitiva, a esclerose múltipla é considerada uma doença tratável. O tratamento tem como objetivo controlar a inflamação, reduzir surtos e retardar a progressão. Em fases iniciais ou durante surtos agudos, a corticoterapia venosa costuma ser utilizada para aliviar rapidamente os sintomas, preparando o paciente para o tratamento modificador da doença.
“Nas últimas duas décadas, houve avanços significativos. Hoje, mais de 15 medicamentos modificadores da doença estão aprovados no Brasil, incluindo opções orais e terapias intravenosas de alta eficácia, aplicadas mensal ou semestralmente. Essas medicações mudaram completamente a perspectiva dos pacientes, permitindo melhor controle da atividade inflamatória”, explica o neurologista.
Além do tratamento medicamentoso, o acompanhamento multidisciplinar é apontado como essencial. Exercícios físicos, fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, nutrição e suporte psicológico contribuem para manter a funcionalidade, o desempenho no trabalho e a vida social. “Quando o acompanhamento é iniciado desde cedo, as chances de independência a longo prazo aumentam significativamente”, diz.
Apesar dos avanços, ainda há estigmas em torno da doença. A confusão com a esclerose lateral amiotrófica (ELA) e a crença de que todos os pacientes acabarão em cadeira de rodas não refletem a realidade atual. Para Helton Benevides, informação qualificada é fundamental para que sintomas não sejam ignorados. “Qualquer pessoa com sinais neurológicos persistentes ou de início súbito deve procurar atendimento médico imediatamente. Não esperar pode fazer toda a diferença”, conclui.
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