O ensino jurídico vive um momento de reformulação constante. À medida que a sociedade se transforma e novas tecnologias moldam as relações humanas, o Direito é convocado a acompanhar esse movimento com rapidez, e as instituições de ensino precisam se adaptar. O debate sobre como formar profissionais preparados para lidar com desafios contemporâneos, desde o ambiente digital até carreiras emergentes, tem ganhado força em todo o país.
Na avaliação de Mário Jorge Fortes, coordenador do curso de Direito da Universidade Tiradentes (Unit), essa renovação não é opcional: é uma necessidade imposta pela própria evolução das relações sociais. De acordo com Mário, olhar para o passado recente ajuda a entender por que o ensino jurídico precisa mudar. “Há poucos anos, as discussões sobre Direito do Consumidor giravam em torno de temas como cheque pré-datado. Hoje, esses assuntos deram lugar a debates sobre compras online, PIX, fraudes digitais e segurança do consumidor no ambiente virtual. O cheque praticamente desapareceu, e agora falamos de ambiente digital”, contextualizou.
Para ele, essa transformação exige que o ensino acompanhe a dinâmica da sociedade. “Não é mais possível estudar Direito do Consumidor sem considerar Direito Digital, proteção de dados e segurança dos sites. Os temas se entrelaçam, e o profissional precisa compreender essa nova complexidade. Esse movimento, reforça que o Direito não é estático. Os conflitos mudam, as relações mudam e, por consequência, as leis e a forma de ensiná-las também precisam ser atualizadas para que os estudantes estejam prontos para atuar em realidades cada vez mais digitais e integradas”, pontua.
Entre a teoria e a prática
Um dos pontos centrais do debate envolve a relação entre teoria e prática no curso de Direito. Mário Jorge reconhece que a formação jurídica possui uma carga teórica naturalmente robusta, resultado da expansão de novos ramos e da necessidade de sólida base conceitual. No entanto, ele destaca que a teoria, isoladamente, não garante a formação de um profissional capaz de solucionar problemas complexos.
“O estudante precisa desenvolver pensamento crítico e habilidade de integrar conhecimentos de áreas distintas. A teoria sozinha não forma um profissional completo. Para isso, atividades práticas, análise de casos, estágios e simulações tornam-se fundamentais para aproximar o estudante dos desafios reais da profissão. Essa combinação fortalece a postura investigativa do futuro jurista, permitindo que ele compreenda não apenas as leis, mas também as circunstâncias sociais que moldam os conflitos jurídicos, preparando-o para atuar em cenários mais amplos e dinâmicos”, ressalta Mário.
Com as mudanças tecnológicas, surgiram novas possibilidades profissionais, e o curso de Direito precisa acompanhar esse movimento. Mário Jorge explica que, além das carreiras tradicionais como advocacia, magistratura, Ministério Público e procuradorias, novas funções têm ganhado espaço, como o Data Protection Officer (DPO), que em português é traduzido como “encarregado de proteção de dados. “Essas áreas emergem justamente da necessidade de lidar com grandes volumes de dados, privacidade e regulamentação digital. Por isso, as instituições devem apresentar esses caminhos aos estudantes, ampliando o horizonte de possibilidades profissionais e evitando a ideia de que o Direito se resume aos ramos clássicos”, recomenta
Carreiras jurídicas em alta
O Brasil possui, segundo dados de 2024 citados por Mário Jorge, cerca de 6,4 milhões de bacharéis em Direito. O número impressiona e reforça a necessidade de uma formação sólida e diversificada, já que apenas parte desses profissionais segue efetivamente para a advocacia. “Com o avanço da informática e das ferramentas digitais, é possível atuar profissionalmente em qualquer lugar do mundo, independentemente da localização física. Um advogado pode peticionar em Sergipe, mesmo residindo em outro estado, o que amplia oportunidades, mas também aumenta a concorrência”, ressalta.
Nesse contexto, Mário destaca que o diferencial do futuro profissional estará tanto na capacidade técnica quanto na disposição para atuar em áreas inovadoras e atender novas demandas, especialmente as relacionadas ao ambiente digital. Outro ponto importante é o impacto das tecnologias e da inteligência artificial no cotidiano acadêmico e profissional. “Embora algumas funções desapareçam, outras surgem, ampliando o campo de atuação dos juristas e criando novas necessidades de especialização”, infere.
O coordenador lembra que estudar nunca foi tão acessível: vídeos, resumos, mapas mentais e plataformas digitais oferecem alternativas que se somam aos livros tradicionais. Entretanto, esse volume de estímulos também pode dispersar o estudante, que precisa aprender a usar esses recursos de forma estratégica. “Propostas como resolução de casos reais, desafios práticos e participação em competições estimulam o engajamento e tornam o aprendizado mais significativo”, complementa.
Preparação para a OAB e concursos públicos
Sobre o momento ideal para começar a preparação para a prova da OAB, Mário Jorge explica que isso depende do objetivo profissional do estudante. Ele lembra que, embora existam milhões de bacharéis, pouco mais de um milhão estão inscritos na Ordem e isso não é um problema, já que o curso abre portas para diversas outras carreiras. “Para quem deseja advogar, o ideal é iniciar a preparação desde o primeiro período, buscando oportunidades, construindo relações e, quando possível, estagiando em escritórios jurídicos. A vivência prática é crucial para desenvolver raciocínio jurídico e familiaridade com os procedimentos”, ressalta.
Já quem mira concursos públicos deve aproveitar a graduação para estudar editais, conversar com professores e compreender as exigências das provas. “Tanto a OAB quanto os concursos possuem etapas teóricas e dissertativas, exigindo não apenas conhecimento, mas também domínio prático e capacidade de argumentação”, finaliza.
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