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Endocrinologista alerta os riscos da hipervitaminose e o uso indiscriminado de suplementos

Embora essenciais ao organismo, vitaminas em excesso podem intoxicar o corpo e causar danos graves ao fígado, rins, metabolismo e coagulação sanguínea

às 18h26
Leonardo Figueiredo Inácio de Souza- médico endocrinologista e professor do curso de Medicina da Universidade Tiradentes
Leonardo Figueiredo Inácio de Souza- médico endocrinologista e professor do curso de Medicina da Universidade Tiradentes
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As vitaminas são protagonistas silenciosas no funcionamento do organismo. Elas participam de reações metabólicas fundamentais, regulam hormônios, auxiliam o sistema imunológico e sustentam processos que garantem o equilíbrio corporal. Algumas delas são produzidas internamente, enquanto outras precisam ser obtidas pela alimentação. 

Quando a oferta natural não é suficiente, a suplementação pode ser necessária desde que prescrita por um profissional. Porém, em um cenário em que existe a popularização dos multivitamínicos e pela busca constante por mais energia, imunidade e desempenho, o consumo excessivo tem se tornado um problema de saúde pública. Quando ultrapassam os níveis seguros, as vitaminas deixam de proteger e passam a agredir, resultando no quadro conhecido como hipervitaminose.

A hipervitaminose corresponde ao excesso de vitaminas no organismo, geralmente em decorrência do uso inadequado de suplementos. Embora pareça inofensivo, o acúmulo exagerado dessas substâncias pode intoxicar o corpo e causar danos duradouros.

De acordo com o médico endocrinologista e professor do curso de Medicina da Universidade Tiradentes (Unit), Leonardo Figueiredo Inácio de Souza, o grande perigo está na falsa ideia de que vitamina nunca faz mal. “Essa percepção leva muitas pessoas a recorrerem a doses muito superiores às necessidades diárias, acreditando que isso trará ganhos rápidos para a saúde. O que se vê na prática é justamente o contrário: o excesso pode trazer complicações sérias e até irreversíveis, sobrecarregando órgãos como fígado e rins e alterando funções metabólicas importantes”, afirma.

O especialista ressalta que o risco é ainda maior porque muitas das vitaminas mais consumidas são lipossolúveis, ou seja, se acumulam no tecido gorduroso e não são eliminadas pela urina. “Com o tempo, esse acúmulo pode provocar intoxicação e desencadear problemas clínicos que muitas vezes não são facilmente associados ao uso de suplementos”, alerta.

Vitaminas que mais causam intoxicação

Entre os casos mais comuns de hipervitaminose estão as intoxicações relacionadas às vitaminas A, D, E e K. Por serem lipossolúveis, essas substâncias permanecem no organismo por longos períodos, aumentando o risco de toxicidade.

Leonardo detalha que a vitamina A, por exemplo, pode provocar alterações no fígado, pele e visão quando consumida em excesso. Já a vitamina D, amplamente utilizada para “melhorar a imunidade”, pode elevar perigosamente os níveis de cálcio no sangue e nos rins. “Esse quadro pode favorecer o surgimento de cálculos renais e levar à insuficiência renal”, afirma. No caso das vitaminas E e K, os efeitos se concentram principalmente na coagulação sanguínea, podendo provocar desequilíbrios severos.

As vitaminas hidrossolúveis, como vitamina C e complexo B, oferecem menor risco, já que tendem a ser eliminadas pela urina. No entanto, o especialista alerta que doses muito altas e prolongadas também podem causar sintomas desagradáveis, como problemas gastrointestinais.

Sintomas e sinais de alerta

A hipervitaminose é uma condição de difícil reconhecimento, principalmente porque seus sintomas podem ser confundidos com outras doenças. O professor destaca sinais como náuseas, dor de cabeça, tontura, fadiga, irritabilidade e alterações na pele, que pode apresentar ressecamento, descamação ou manchas. “Muitas vezes, o paciente não associa esses sintomas ao uso de suplementos, justamente porque acredita que eles só trazem benefícios”, comenta.

Quando a intoxicação envolve doses elevadas por períodos prolongados, os efeitos podem se intensificar. Dor óssea e articular, confusão mental, problemas renais e alterações cardíacas passam a ser observados, podendo evoluir para sequelas graves. Em situações extremas, há risco de danos hepáticos e neurológicos. “Essa é a faceta mais perigosa da hipervitaminose: seu início silencioso e a potencial progressão para quadros complexos”, pontua Leonardo.

O consumo por conta própria é, segundo o endocrinologista, o principal responsável pelos casos de hipervitaminose. A oferta crescente de suplementos com altas concentrações vitamínicas, disponíveis sem prescrição, contribui para que muitas pessoas recorram a esses produtos sem real necessidade. “Hoje encontramos cápsulas com doses muito superiores às recomendadas diariamente. Quando somadas a uma alimentação rica e variada, o corpo passa a receber mais vitaminas do que consegue metabolizar”, explica.

Leonardo reforça que ações motivadas pelo desejo de prevenir doenças ou aumentar a imunidade podem se transformar em um problema maior. Ele observa que o ato de suplementar precisa ser pautado por evidências e não por tendências ou influenciadores. “A ideia de que tomar vitaminas por precaução faz bem é equivocada. É um comportamento comum, mas potencialmente perigoso”, afirma.

Quando suplementar é realmente necessário

A suplementação não é, por si só, uma vilã. O endocrinologista explica que existem situações específicas em que ela é indispensável, como gestação, lactação, pós-cirurgia bariátrica, doenças intestinais crônicas e em casos de deficiência comprovada por exames laboratoriais. Em idosos, a indicação também pode ser necessária devido a dificuldades de absorção.

Para pessoas saudáveis e com alimentação equilibrada, no entanto, a suplementação costuma ser desnecessária. “A avaliação médica ou nutricional é fundamental para identificar se há realmente deficiência e qual é a dose adequada”, esclarece. Ele reforça que cada caso é único e que o consumo deve ser individualizado para garantir segurança e eficácia.

Quando mantido ao longo do tempo, o consumo exagerado de vitaminas pode desencadear danos permanentes. A vitamina A, por exemplo, está associada à cirrose hepática, queda de cabelo e alterações ósseas. A vitamina D pode causar calcificação de tecidos, formação de cálculos e insuficiência renal. Já a vitamina E, além de sobrecarregar o organismo, aumenta o risco de sangramentos internos.

O professor reforça que, em muitos casos, a hipervitaminose começa como uma tentativa de melhorar a saúde, mas pode terminar em internações. “É um paradoxo: aquilo que se busca para promover bem-estar acaba trazendo consequências graves”, alerta. Por isso, o monitoramento profissional é indispensável, especialmente durante tratamentos prolongados.

Diagnóstico, tratamento e a importância do equilíbrio

O diagnóstico da hipervitaminose é realizado por meio de avaliação clínica e exames laboratoriais que medem os níveis de vitaminas no sangue e verificam a função de órgãos como fígado e rins. Quando identificada, a primeira medida é interromper imediatamente o uso do suplemento. Dependendo da gravidade, pode ser necessário acompanhamento hospitalar para corrigir complicações metabólicas e garantir hidratação adequada.

Leonardo reforça que o equilíbrio é o princípio básico de uma vida saudável. Ele destaca que hábitos simples, como alimentação balanceada, rotina de sono regular e prática de exercícios, são muito mais eficazes na manutenção da saúde do que cápsulas consumidas sem critério. “A verdadeira saúde vem do equilíbrio e não do excesso. Antes de usar qualquer suplemento, é essencial consultar um médico ou nutricionista”, orienta.

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