A arte e a ancestralidade dos povos indígenas será o tema principal de mais uma grande exposição temporária do Memorial de Sergipe Prof. Jouberto Uchôa: “Xocó: Práticas e Saberes de Resistência”, que será aberta no próximo 17 de abril, às 10h, na Pinacoteca do Memorial. Ela vai apresentar o trabalho artístico composto pelo artesão e escultor sergipano José Cândido dos Santos, o “Zé do Chalé” (1903-2008), cuja obra é bastante ligada à cultura e às tradições dos Xocós, o principal povo originário de Sergipe.
A exposição conta com esculturas de madeira talhadas por Zé do Chalé e por seu filho, Zacarias dos Santos, que também seguiu a carreira de escultor e deu seguimento ao trabalho artístico iniciado pelo pai. Ela também terá fotografias do também artista Nailson Moura, objetos etnográficos e outras peças. Parte desse acervo pertence ao Memorial de Sergipe, integrando a coleção do escritor, colecionador e museólogo José Augusto Garcez (1918-1992). As outras peças foram complementadas com o acervo cedido pelos próprios artistas e pela família de Zé do Chalé.
Para a museóloga Sayonara Viana, diretora do Memorial e curadora da exposição, ela celebra a riqueza estética e cultural do povo Xocó, reunindo obras de arte e objetos etnográficos que narram histórias de ancestralidade e território. “A reunião dessas obras propõe ao espectador uma experiência de aproximação com os saberes, a estética e a espiritualidade do povo Xocó. Não será só observar objetos, o público será convidado a refletir sobre formas de existência, resistência e produção de conhecimento que muitas vezes foram invisibilizadas. A exposição convida o público a reconhecer a riqueza e a complexidade das culturas indígenas, tendo como base o conceito de descolonização em museus”, destacou ela.
A mostra, cuja abertura marca a comemoração do Dia dos Povos Indígenas (19 de abril), é promovida pelo Memorial de Sergipe e pelo Instituto de Tecnologia e Pesquisa (ITP), com patrocínio da Universidade Tiradentes (Unit), do Banco do Nordeste e da Lei de Incentivo à Cultura, mais o apoio do Ministério da Cultura e do Arquivo Público do Estado de Sergipe (Apes), que cedeu documentos históricos relacionados ao processo de retomada pelo povo Xocó das terras da Ilha de São Pedro, em Porto da Folha, e sua posterior demarcação como terra indígena pela Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), entre 1979 e 1991. Eles também serão apresentados na exposição.
Origens e referências
A exposição também resgata e reapresenta a história de José Cândido, intimamente ligada à trajetória do povo Xocó. Nascido em 1903 no povoado Saúde, em Neópolis, ele era descendente direto dos indígenas, e foi criado nas terras na Ilha de São Pedro. Ali, ficou conhecido como “Zé do Chalé” por causa da habilidade que adquiriu como carpinteiro e construtor de barcos e casas. Em meados do século passado, os xocós foram expulsos das terras e voltaram para lá a partir de 1979, quando a área foi desapropriada pelo governo estadual. Em meio a esse tempo, Cândido mudou-se para Aracaju em 1958 e trabalhou na construção civil, como mestre-de-obras.
“Sua relação com a comunidade Xocó da Ilha de São Pedro foi fundamental em sua formação, tendo atuado na juventude na construção de embarcações no rio São Francisco. Curiosamente, sua produção artística começou tardiamente, por volta dos 92 anos, após se aposentar da construção civil. A partir daí, desenvolveu esculturas em madeira marcadas por formas verticais, geométricas e, por vezes, abstratas, criando estruturas que ele próprio chamava de ‘troféus’, muitas vezes inspiradas em edificações imaginárias e elementos simbólicos”, lembra Sayonara.
Talhadas em madeiras dos mais variados tipos, como mulungu, cedro, umburana, pinho, maçaranduba, jaqueira, ingaporca e paraíba, estas esculturas apresentam figuras indígenas hieráticas, associadas à identidade Xocó, bem como pássaros, folhas, cruzes, estrelas, luas e estruturas que remetem a igrejas, casas ou construções. Tudo isso foi chamando a atenção da cena artística sergipana, que passou a organizar exposições e mostras para apresentá-las ao público. Até que, em 2005, Zé do Chalé foi incluído no livro “Pequeno Dicionário da Arte do Povo Brasileiro”, da historiadora e crítica de arte Lélia Coelho Frota (1983-2010), uma das principais especialistas em cultura popular no Brasil.
Apoio da Unit
Entre novembro de 2007 e janeiro de 2008, deu-se o marco definitivo de sua carreira: a exposição “Zé do Chalé: o antigo dono da flecha”, que foi realizada no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP), no Rio de Janeiro (RJ). A Unit foi uma das apoiadoras da realização da mostra, financiando o traslado das obras para o Rio. Sayonara Viana foi a responsável pela pesquisa e produção do catálogo da exposição, além de assinar o texto de apresentação, intitulado “Zé do Chalé: um século em busca do que é seu”.
“Imagine um homem com 104 anos começar a mostrar o seu trabalho, que só começou mesmo aos 92. Inclusive, na abertura da exposição no Rio, ele não pode ir por questões de saúde, pois já estava um pouco frágil. Foi o filho Zacarias que representou ele lá na abertura, e eu também estava presente. Mas foi muito importante que esse reconhecimento a ele e a sua obra tenha sido dado em vida. O museu de lá foi bastante acolhedor e a exposição foi um sucesso, muito bem frequentada”, lembra ela, ressaltando que a ideia da exposição atual, no Memorial de Sergipe, surgiu a partir do desejo de homenagear o artista e de dar prosseguimento ao apoio dado pela Unit em 2007.
A continuidade
Zé do Chalé morreu em meados de 2008, aos 105 anos, em Aracaju. O legado de sua obra artística foi levado adiante pelos filhos, em especial por Zacarias, que aprendeu a trabalhar com madeira dentro do ambiente familiar. A princípio, ele auxiliava na produção das peças, especialmente na fase de acabamento. “Posteriormente, desenvolveu sua própria linguagem artística. Seu trabalho também é feito em madeira, com características mais livres e abstratas, incorporando elementos diversos como animais, astros e referências culturais variadas”, explica Sayonara.
Ela acrescenta que Zacarias foi ampliando o repertório do pai em suas obras, explorando formas mais abstratas e incorporando representações da fauna, do cosmos e de referências culturais diversas, mas mantendo o vínculo com a tradição familiar e com a madeira como suporte principal.
“Zé do Chalé e Zacarias dos Santos representam marcos importantes para as artes plásticas em Sergipe, especialmente no que diz respeito à visibilidade da produção indígena. Essas obras apresentam elementos da cultura Xocó e se sobressaem pela expressividade, pela riqueza simbólica e pela forte relação com a ancestralidade e o território”, diz a diretora, considerando que os trabalhos da exposição reflexões sobre o respeito que deve ser dado ao povo Xocó e aos indígenas em geral. “O Memorial de Sergipe também busca ampliar o diálogo com o povo Xocó, reconhecendo sua relevância histórica e cultural”, concluiu.
Serviço
A exposição “Xocó: Práticas e Saberes de Resistência” exposição permanecerá em cartaz até junho no Memorial de Sergipe Professor Jouberto Uchôa, que fica na Praça de Eventos da Orla da Atalaia (Av. Santos Dumont, 100, Coroa do Meio, Aracaju). O acesso é feito de terça a sábado, das 10h às 16h. Os ingressos podem ser comprados diretamente na recepção ou pelo site oficial. Grupos acima de 20 pessoas e instituições devem realizar o agendamento da visita através do Whatsapp (79) 98108-1866.
Leia mais:
Memorial de Sergipe projeta novas exposições e ações educativas em 2026
Pesquisas revelam desafios históricos e avanços recentes na comunidade indígena Xocó
Mercado Antônio Franco chega aos 100 anos como marco da formação urbana de Aracaju