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Mercado de trabalho fecha 2025 em ritmo “exuberante”, apesar dos juros elevados

Com menor taxa de desocupação da série histórica e forte absorção da mão de obra, Brasil registra recorde de ocupação e renda, mas a inflação ainda provoca atenção redobrada do Banco Central

às 13h25
A criação de vagas de trabalho e o baixo desemprego, mesmo com os juros altos, formam um cenário atribuído à resiliência da atividade econômica em diversos setores (José Cruz/Agência Brasil)
A criação de vagas de trabalho e o baixo desemprego, mesmo com os juros altos, formam um cenário atribuído à resiliência da atividade econômica em diversos setores (José Cruz/Agência Brasil)
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O ano de 2025 foi marcado por um dado positivo nos indicadores econômicos do Brasil: a queda contínua das taxas de desemprego medidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua). O índice de desocupação começou o primeiro trimestre (entre janeiro e março) em 7% da força de trabalho e foi decaindo mês a mês, até alcançar 5,2% no trimestre entre setembro e novembro – resultado que foi divulgado oficialmente no último dia 30 de dezembro. 

Trata-se da menor taxa já registrada desde o início da pesquisa, em 2012. E uma quebra do recorde já alcançado no trimestre entre maio e julho, que foi de 5,6%. O resultado referente ao fechamento do ano, dezembro, só será divulgado no fim deste mês. No entanto, a sequência já é vista como uma vitória pela área econômica do governo. O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, chegou a dizer que o Brasil tem hoje “o mercado de trabalho mais exuberante que a gente viu nas últimas três décadas”. 

Para o economista e professor Rodrigo Rocha, dos cursos de Administração, Ciências Contábeis e pós-graduação Lato Sensu da Universidade Tiradentes (Unit), esta afirmação encontra forte respaldo nos dados atuais, especialmente ao considerar a menor desocupação da série e o recorde de empregados com carteira assinada no setor privado, que somou 39,4 milhões. O governo cita ainda que a renda média real do trabalhador subiu para R$ 3.544, o maior valor da história, com crescimento de 7,8% entre 2023 e 2025. 

“Esse cenário de baixa taxa de desemprego e crescimento da renda média real é, de fato, um indicativo de um mercado aquecido e ‘apertado’. A menção à exuberância é pertinente, porque a melhora ocorre mesmo sob um contexto de juros altos, que teoricamente desacelerariam a atividade econômica e, consequentemente, o emprego. O mercado de trabalho tem demonstrado uma dinâmica própria e surpreendente, superando as expectativas e projeções de desaceleração que eram feitas por analistas devido à política monetária restritiva”, diz Rodrigo, referindo-se ao estágio atual da Taxa Selic de juros, atualmente em 15% ao ano.

Outro fator apontado para o “momento exuberante” do mercado brasileiro é o menor contingente de pessoas desocupadas da série histórica, com o país registrando cerca de 5,6 milhões de pessoas buscando trabalho. Além disso, a população ocupada também se mantém em um nível elevado, atingindo igualmente seu recorde na Pnad Contínua: 103 milhões de pessoas ocupadas. O professor avalia que o cenário demonstra uma absorção considerável da força de trabalho pela economia, que se justifica pela continuidade do crescimento da população ocupada, que tem sido impulsionado pela resiliência da atividade econômica em diversos setores. 

“Setores como a agropecuária, a administração pública (incluindo educação e saúde) e o setor de serviços, de maneira geral, têm puxado o crescimento do emprego formal e informal. Outro fator é a desaceleração da busca por trabalho por parte de algumas parcelas da população, o que, em termos técnicos, contribui para a redução da taxa de desemprego, embora essa interpretação exija cautela. No entanto, o crescimento recorde no número de trabalhadores com carteira assinada sugere que o avanço é estruturalmente positivo, e não apenas um reflexo do desincentivo à procura”, afirma Rocha, acrescentando que, “apesar de um choque na taxa de juros (Selic) para conter a inflação, o mercado de trabalho continua a absorver a força de trabalho, indicando um descolamento ou um atraso dos efeitos da política monetária restritiva sobre a dinâmica do emprego”.

Por outro lado, a taxa de informalidade do mercado permanece em cerca de 37,7% da população ocupada, o que sugere que parte dessa ocupação é impulsionada por trabalhos sem vínculo formal. Na visão do economista, isso levanta questões sobre a qualidade de todos os postos de trabalho gerados. “Portanto, a ‘exuberância’ é inegável em termos de volume e taxa de desocupação, mas a discussão sobre a qualidade e a sustentabilidade plena desses postos, especialmente os informais, ainda permanece”, ressalta ele.

Inflação à espreita

O comportamento dos juros e da inflação é o maior ponto de atenção da política econômica do governo. A Selic de 15%, maior patamar em 20 anos, foi fixada na última reunião do Comitê de Política Monetária do BC (Copom), em dezembro, como parte de uma estratégia para manter o controle da inflação no país. Para o mercado, a estratégia vem dando certo. Nesta sexta-feira, 9, o IBGE divulgou que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), índice oficial de inflação, fechou o ano de 2025 com alta acumulada de 4,26% em 2025, dentro da meta de 4,5% estipulada pelo governo.

A justificativa do Copom para a alta dos juros é de que “os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, seguem mais elevados do que o usual”, e que tais riscos são influenciados principalmente pelo cenário de instabilidade na conjuntura e nas condições financeiras globais, o qual “exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por tensão geopolítica”.

O professor Rodrigo Rocha cita outro ponto, que pode parecer até contraditório: a ‘exuberância’ do mercado de trabalho é vista pelo próprio BC como um fator de pressão inflacionária. Isto porquê, segundo ele, o aumento da demanda por mão de obra pode gerar um crescimento salarial mais forte, o que, por sua vez, pode realimentar a inflação e justificaria a manutenção da Selic em níveis altos, para provocar uma desaceleração na atividade econômica, que contenha da inflação, mantendo-a dentro das metas. 

“Dessa forma, a previsão econômica é complexa. Por um lado, o emprego e a renda sustentam um crescimento do PIB maior do que o inicialmente esperado. Por outro, o BC precisa avaliar o quanto esse dinamismo do emprego pode forçar o aumento da taxa básica de juros, que hoje é a ferramenta principal para ancorar as expectativas de inflação e garantir a sustentabilidade do crescimento”, considera o economista.

Apesar destes receios, a perspectiva é de que o mercado de trabalho continue aquecido em 2026 e, ao mesmo tempo, que a taxa de juros comece a cair gradualmente, mas mantendo a inflação controlada. Para o professor, a sustentabilidade desse cenário exige que a Selic comece a recuar, reduzindo o atual impacto negativo no crédito e nos investimentos. 

“Se o BC for capaz de reduzir os juros gradualmente, mantendo o controle inflacionário, a atividade econômica pode continuar aquecida, favorecendo a abertura de novas vagas. O principal desafio para 2026 não será apenas a quantidade de postos de trabalho, mas a qualidade da ocupação. Para que o baixo desemprego seja sustentável e beneficie amplamente a população, o país precisará continuar gerando empregos formais, com carteira assinada, e aumentando o nível de produtividade. Assim, o baixo desemprego pode continuar, mas o foco da discussão deve migrar para o pleno emprego com qualidade”, concluiu Rodrigo. 

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