“Um dia, eu simplesmente apareci no mundo”. Esta era a resposta que costumava ser dada por Arthur Bispo do Rosário, nas vezes em que era perguntado sobre quando e onde nasceu. Um interesse que crescia na mesma medida em que a atenção do mundo se voltava para as suas milhares de obras artísticas: estandartes, bordados, quadros e outras representações feitas com os mais variados materiais, catados muitas vezes do lixo descartado pelos internos da antiga Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro. O que muitos não sabiam é que aquele senhor paciente e fragilizado carregava consigo as raízes sergipanas, e ao mesmo tempo, quebrava paradigmas da arte contemporânea mundial.
Tais raízes remetem a Japaratuba, cidade da região do Vale do Cotinguiba, onde nasceu. Há dúvidas sobre a real data do nascimento, pois não há certeza sobre a localização (ou existência) da certidão de nascimento dele. No entanto, existem registros de duas prováveis datas: 14 de maio de 1909, que aparece nos registros de alistamento da Marinha do Brasil; e 16 de março de 1911, que consta nos documentos da companhia Light, do Rio, onde Bispo trabalhou por quatro anos.
“Destaca-se a sua trajetória marcada por contrastes: um homem negro, sergipano, saído de uma infância humilde, com passagens pela Marinha, até o episódio que o levou à internação psiquiátrica na Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro. Sua vida foi atravessada pela exclusão social e institucional, mas também por uma potência criadora, que transformou o confinamento em espaço de produção artística”, resume a museóloga Sayonara Viana, diretora do Memorial de Sergipe Professor Jouberto Uchôa.
Com 14 anos, Bispo entrou na antiga Escola de Aprendizes Marinheiros, em Aracaju, o que marcou seu ingresso na Marinha do Brasil. Foi logo transferido para o Rio e serviu à corporação até 1933, quando foi expulso por indisciplina. Fora da caserna, foi trabalhar na manutenção dos bondes da Light, de onde saiu após sofrer um acidente de trabalho que comprometeu um de seus pés. E interrompeu uma promissora carreira no boxe, esporte que o sergipano começou a praticar na Marinha. Após se abrigar na casa de um advogado, que acompanhava um processo contra a empresa, Bispo passou a trabalhar para ele.
Às vésperas do Natal de 1938, ele surpreendeu a todos dizendo que teve uma visão do Apocalipse e que teria vindo dos céus, enviado como “aquele que veio julgar os vivos e os mortos”. Após se apresentar em um mosteiro católico, ele foi internado no Hospital Psiquiátrico da Praia Vermelha, com quadro de esquizofrenia e paranoia, e de lá mandado para a Juliano Moreira. Após alguns períodos de reabilitação, prestando serviços para casas de família e até para uma clínica pediátrica, Arthur foi internado definitivamente na Juliano Moreira em 1964.
Para apresentar a Deus
Foi neste retorno à colônia em que ele relata ter ouvido vozes que lhe repassaram uma “missão divina”: fazer uma espécie de “inventário” do mundo para ser apresentado a Deus durante o Juízo Final. A partir daí, trancou-se em sua cela durante sete anos e começou a bordar e costurar uniformes, mantos, roupas, faixas, painéis e estandartes com nomes, datas, palavras e símbolos, além de construir vitrines com objetos catalogados e representações de carruagens, barcos e veleiros. Para isso, utilizava o bordado, a costura, a assemblage [montagem] e a organização de objetos, reaproveitando materiais como tecidos, linhas, uniformes, talheres, sapatos e garrafas.
Um exemplo disso está na sua obra mais famosa: o Manto da Apresentação. Nele, o então paciente pegou um cobertor da Colônia e, usando fios, cordas, franjas e outros materiais, bordou nomes, datas e objetos que acreditava serem necessários. Para Arthur, era uma veste sagrada, que reúne um “inventário” simbólico da vida, e com a qual passaria para a eternidade. “A sua produção está relacionada à sua experiência psíquica, especialmente à missão que ele acreditava ter recebido de representar o mundo para apresentá-lo a Deus. No entanto, é fundamental compreender que sua obra vai além do adoecimento, e não pode ser reduzida a isso. Entre os temas recorrentes de suas obras, estão a catalogação do mundo, a memória, a religiosidade, a identidade, o cotidiano, as instituições de poder e a própria experiência do confinamento”, frisa Sayonara.
As peças do “inventário” começam a despertar a atenção do público especializado em 1980, após uma reportagem exibida no programa Fantástico, da TV Globo. A matéria do jornalista Samuel Wainer Filho (1955-1984) denunciava as más condições de vida e de estrutura da Colônia Juliano Moreira, mas incluiu uma descrição sobre Bispo do Rosário e mostrou alguns de seus trabalhos. No mesmo ano, o psicanalista Hugo Denizart consegue gravar uma longa entrevista com o sergipano, no qual ele fala de sua “missão divina” e explica as suas peças e confecções. A partir daí, Denizart produz o filme O Prisioneiro da Passagem: Arthur Bispo do Rosário, lançado em 1982.
No mesmo ano, os principais trabalhos de Bispo são apresentados no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ), em uma exposição organizada pelo crítico de arte Frederico Morais. Ele foi o primeiro a alçar a obra do então paciente à arte de vanguarda, comparando-o a nomes como o do francês Marcel Duchamp (1887-1968). “O reconhecimento ocorreu de forma gradual, especialmente a partir dos anos 1980, quando críticos e curadores passaram a olhar sua produção para além da condição de paciente psiquiátrico”, destacou a diretora do Memorial.
De Sergipe e do mundo
Parte deste reconhecimento foi presenciado em vida por Arthur, que morreu em 5 de julho de 1989, no antigo Hospital Jurandyr Manfredini, que fazia parte da Colônia Juliano Moreira. O corpo foi sepultado em um cemitério de Jacarepaguá, no Rio. Em janeiro de 2004, a partir de uma mobilização que envolveu movimentos e entidades culturais sergipanas, além das prefeituras das duas cidades, os restos mortais de Bispo do Rosário foram trasladados para Japaratuba e enterrados embaixo de uma estátua erguida em sua homenagem. Nela, foi gravada a frase: “Pise forte neste chão. Você está na terra de Arthur Bispo do Rosário”.
Ao longo dos últimos 30 anos, o sergipano foi tema de mais de 120 exposições que mostraram seu trabalho no Brasil e em países como Japão, Estados Unidos, México, Argentina, França, Alemanha, Itália, Bélgica, Reino Unido, Portugal e Espanha. Uma das mais importantes foi a da Bienal de Veneza, em 1995, que consolidou Bispo do Rosário como um dos grandes nomes da arte mundial. Todo o acervo artístico dele foi tombado em 1992 pelo Instituto Estadual do Patrimônio Artístico e Cultural do Rio de Janeiro (Inepac) e está preservado no Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea, que funciona na antiga Colônia Juliano Moreira, hoje transformado em um circuito cultural mantido pela Prefeitura do Rio de Janeiro.
Em 1996, foi lançada a biografia Arthur Bispo do Rosário: O senhor do labirinto, da jornalista e escritora carioca Luciana Hidalgo. Considerado um dos mais completos trabalhos sobre o artista sergipano, o livro ganhou o Prêmio Jabuti daquele ano, na categoria Livro-Reportagem, e foi transformado no filme O Senhor do Labirinto, de 2014. Todas as gravações do filme foram realizadas em Sergipe e o personagem principal foi interpretado pelo ator gaúcho Flávio Bauraqui.
Com este reconhecimento nacional e mundial, associado à valorização de suas origens, o japaratubense tornou-se um personagem muito importante na identidade cultural da nossa terra. “Arthur Bispo do Rosário é uma das figuras mais emblemáticas das artes plásticas ligadas a Sergipe, mesmo tendo desenvolvido praticamente toda a sua produção fora do estado. Sua importância reside no fato de ser um artista único, cuja obra rompe com padrões acadêmicos e amplia a compreensão do que é arte. Ele representa a potência criativa sergipana, mesmo em contextos adversos, e simboliza resistência e a capacidade de transformar dor e exclusão em expressão artística”, definiu Sayonara Viana.
No Memorial
A trajetória de Bispo do Rosário, assim como a importância de sua obra artística, estão retratados no Memorial de Sergipe Professor Jouberto Uchôa, através de um vídeo exibido na sala Povos Escravizados, e de livros pertencentes ao acervo da Biblioteca Lourival Baptista. Ele também está retratado em uma ilustração na fachada do Memorial, assinada por Cláudia Nên.
com informações de Enciclopédia Itaú Cultural e Museu Bispo do Rosário
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