ESTUDE NA UNIT
MENU

Pesquisa analisa circulação de materiais didáticos em Sergipe no início do século 20 

Estudo a partir de inventários comerciais revela como livros e cadernos integravam o consumo cotidiano

às 19h38
Compartilhe:

A circulação do conhecimento no início do século 20, em Sergipe, estava profundamente conectada às práticas cotidianas de consumo. Diferentemente da lógica atual, marcada pela segmentação de mercados e especialização de espaços comerciais, livros didáticos, cadernos, alimentos e utensílios domésticos eram adquiridos em um mesmo local. Essa dinâmica foi revelada por uma pesquisa de iniciação científica desenvolvida na Universidade Tiradentes (Unit) por Michael Douglas Celestino, hoje professor do curso de Educação Física da instituição e pesquisador doutor, à época estudante de graduação.

O estudo integrou um projeto-guarda-chuva coordenado pela professora Vera Maria, que investigava a Capitania de Sergipe Del Rey, denominação do território no período colonial, com foco nos processos de colonização, civilização e práticas culturais entre os séculos 18 e 19. A partir desse escopo mais amplo, a pesquisa de Michael concentrou-se na análise de inventários comerciais do início do século 20, buscando compreender se havia circulação de materiais didáticos e de que maneira esse fluxo ocorria no contexto histórico local.

Projeto e contexto histórico

Michael explicou que o recorte do estudo surgiu como um desdobramento natural do projeto maior, sem que houvesse, inicialmente, a intenção de investigar autores ou títulos específicos. A proposta era identificar indícios da circulação de materiais educativos a partir de documentos históricos. “Nosso objetivo inicial era observar se existiam materiais didáticos nesses espaços comerciais e como essa circulação se dava, sem partir de uma hipótese fechada”, detalhou.

A pesquisa analisou o inventário de uma casa comercial localizada no Arquivo Judiciário do Estado de Sergipe. O estabelecimento, identificado como Casa Comercial Guilherme Filho, possuía registros datados de 1901 e um inventário com 482 páginas. “Esse tipo de documentação oferece uma visão privilegiada sobre as práticas sociais da época, uma vez que registra de forma minuciosa os produtos comercializados e consumidos pela população”, elenca.

Embora, em um primeiro momento, o pesquisador tenha mencionado a presença direta de livros didáticos, ele esclarece que os documentos não traziam notas específicas de compra desses materiais. “O que se encontrou, na verdade, foi a indicação de que esse tipo de item fazia parte do conjunto de mercadorias comercializadas naquele espaço, o que já é um dado relevante para compreender a circulação do conhecimento naquele período”, comenta.

Metodologia e achados

Do ponto de vista metodológico, a pesquisa consistiu em um levantamento e leitura bibliográfica sobre fotografia e digitalização de inventários, seguido da análise documental propriamente dita. Após a identificação do material, os registros foram fotografados e posteriormente transcritos, em um processo inteiramente manual. “À época, esse trabalho exigia tempo, cuidado e rigor, especialmente por se tratar de documentos históricos sensíveis”, ressalta.

A leitura dos inventários revelou uma diversidade impressionante de produtos. Além de papéis para impressão, cadernos, envelopes, blocos de papel e romances de diferentes coleções, o mesmo espaço comercial reunia alimentos como café, leite, açúcar, arroz, farinha, frutas, ervas, azeite e vinho, além de itens domésticos como cortinas, esponjas, detergente e utensílios variados. “Essa multiplicidade de mercadorias evidencia uma lógica de consumo integrada, muito distante da organização comercial contemporânea”, comenta.

Para o pesquisador, o dado mais expressivo foi justamente a convivência desses diferentes produtos em um único ponto de venda. “Para uma mesma pessoa, apareciam registros de compra de livros, cadernos e, ao mesmo tempo, alimentos e itens domésticos. Isso mostra que o acesso ao material didático fazia parte da rotina cotidiana, inserido na mesma dinâmica de consumo básico”, explicou. Essa constatação ajuda a compreender como o conhecimento circulava de forma mais orgânica no tecido social da época.

Impactos acadêmicos

A pesquisa também teve impacto na trajetória acadêmica de Michael Douglas Celestino. Desenvolvido em parceria com o colega Lucas Ramos, o projeto representou o primeiro contato efetivo dos estudantes com o universo da pesquisa científica. Segundo ele, essa experiência foi decisiva para despertar o interesse pelo fazer científico e pela carreira acadêmica.

Michael destacou que, embora não tenha seguido a mesma linha temática ao longo da formação, a iniciação científica foi fundamental para sua trajetória posterior. Formado em Educação Física pela Unit, ele realizou mestrado e doutorado e, atualmente, atua como pesquisador e professor da instituição. “Foi nesse projeto que compreendi, pela primeira vez, o que significa pesquisar, organizar dados, escrever cientificamente. A semente do meu percurso acadêmico foi plantada ali”, afirmou.

Hoje, já na posição de orientador, ele ressalta a importância da iniciação científica na formação de estudantes de todas as áreas. Para Michael, esse tipo de experiência promove uma maturidade intelectual acelerada, fruto da relação próxima entre aluno e orientador e do contato contínuo com métodos e práticas de pesquisa. “A iniciação científica transforma o estudante. Ela não apenas prepara para a pós-graduação, mas desenvolve um olhar crítico e investigativo que acompanha o profissional ao longo de toda a carreira”, concluiu.

Leia também: De aluno da Unit a professor e executivo de TI: a trajetória de Fabrínio Lemos

Compartilhe: