A integração entre inovação, sustentabilidade e governança vem dando origem ao que se conhece hoje como Cidades Inteligentes, espaços que utilizam dados e tecnologias para aprimorar serviços públicos, otimizar recursos e melhorar a qualidade de vida da população. No entanto, mais do que uma questão tecnológica, trata-se de um modelo de desenvolvimento que coloca o cidadão no centro das decisões e busca soluções adaptadas às necessidades locais, um desafio especialmente complexo em países de grande diversidade social, como o Brasil.
Com o intuito de compreender como essa discussão vem sendo construída no meio acadêmico nacional, o estudante de Direito da Universidade Tiradentes (Unit), Gustavo Oliveira de Santana, desenvolveu o trabalho “Estudo Bibliométrico da Produção Científica sobre Cidades Inteligentes nas bases SCIELO e BDTD, no período de 2013 a 2023, no Brasil”. A pesquisa, orientada pelo professor Diogo de Calasans Melo Andrade e com colaboração de Letícia Cruz, faz parte da linha de pesquisa Direito e Novas Tecnologias e buscou analisar o crescimento, as tendências e as lacunas na produção científica brasileira sobre o tema.
Segundo Gustavo Oliveira, a motivação para o estudo surgiu da percepção de que as Cidades Inteligentes representam uma das principais pautas do século XXI. “As cidades estão mudando rapidamente e precisam de soluções que integrem tecnologia, sustentabilidade e inclusão social. Estudar esse tema é entender o presente e projetar o futuro”, afirmou.
O pesquisador explica que o estudo bibliométrico teve como objetivo sistematizar o conhecimento produzido no país sobre o assunto, revelando a evolução das publicações e identificando quais dimensões têm recebido maior atenção. “Constatamos um crescimento expressivo e contínuo na produção científica sobre Cidades Inteligentes no Brasil entre 2013 e 2023. Esse avanço mostra que o tema amadureceu e se consolidou como um campo de pesquisa relevante e multidisciplinar”, detalhou.
Um olhar abrangente sobre cidades inteligentes
De acordo com o levantamento, os principais eixos abordados nas pesquisas brasileiras são sustentabilidade, governança e inovação tecnológica. Esses pilares, segundo Gustavo, demonstram que a abordagem nacional vai além da aplicação de ferramentas digitais, buscando alinhar tecnologia e desenvolvimento humano. “O debate no Brasil tem se mostrado muito mais preocupado com o impacto social e urbano do que apenas com a adoção de dispositivos tecnológicos. O foco é em como essas ferramentas podem melhorar a gestão pública e a vida das pessoas”, observou.
Um dos pontos mais relevantes da pesquisa é a necessidade de contextualizar o conceito de Cidades Inteligentes à realidade brasileira. Para Gustavo, não é possível simplesmente importar modelos de países desenvolvidos. “As nossas cidades enfrentam desafios próprios, como mobilidade urbana, saneamento básico e desigualdade social, e qualquer estratégia inteligente precisa nascer desse contexto. O estudo da produção científica nacional ajuda a identificar como o Brasil vem adaptando essas soluções às suas necessidades”, explicou.
O trabalho também revela que a ciência nacional vem se tornando protagonista nesse debate, propondo caminhos para políticas públicas mais eficientes e inclusivas. “Ao mapear as pesquisas, conseguimos identificar quem está produzindo conhecimento sobre o tema, em que regiões e com quais abordagens. Isso cria oportunidades de colaboração entre universidades, governos e empresas, fortalecendo a inovação aplicada à realidade urbana”, ressaltou.
Na avaliação do estudante, esse tipo de levantamento funciona como um verdadeiro mapa do conhecimento. “Ele mostra onde já temos avanços e onde ainda existem lacunas, permitindo que os gestores públicos e os pesquisadores possam agir de maneira mais estratégica. A pesquisa ajuda, por exemplo, a direcionar investimentos e políticas públicas baseadas em evidências”, completou.
O equilíbrio das cidades do futuro
Além da análise científica, a pesquisa também suscita uma reflexão sobre o papel ético e social da tecnologia nas cidades. Gustavo acredita que o uso inteligente dos dados e das ferramentas digitais pode transformar a vida das pessoas, desde que seja conduzido de forma responsável. “A tecnologia tem o poder e a responsabilidade de promover inclusão. Ela pode otimizar o transporte, melhorar o saneamento, tornar os serviços públicos mais rápidos e acessíveis. Mas, para isso, é essencial garantir que todos tenham acesso e que a inovação não aumente as desigualdades”, defendeu.
Na sua visão, as cidades do futuro serão ecossistemas conectados, sustentáveis e participativos. “Imagino cidades verdes, resilientes e governadas pela colaboração. A tecnologia precisa servir à cidadania, não o contrário. As decisões sobre o espaço urbano devem ser tomadas de forma transparente, com participação social e uso ético dos dados”, destacou.
O pesquisador aponta ainda que, ao integrar sustentabilidade, inovação e governança, as Cidades Inteligentes deixam de ser uma utopia tecnológica e se tornam uma estratégia de desenvolvimento humano. “Serão cidades inteligentes na tecnologia, mas sábias nas escolhas, sempre colocando a qualidade de vida das pessoas em primeiro lugar”, acrescentou.
Ciência, formação e futuro profissional
Para Gustavo, participar da Iniciação Científica foi uma experiência transformadora. Atualmente em sua quarta pesquisa na área, ele destaca que o programa o ajudou a consolidar o desejo de seguir carreira acadêmica. “A IC me ensinou a pensar de forma crítica e a entender o papel da ciência na sociedade. Cada etapa da pesquisa me aproximou mais da realidade urbana e da importância de produzir conhecimento que tenha impacto social”, contou.
O estudante também reconhece o papel essencial da Universidade Tiradentes no processo. “A Unit foi fundamental, oferecendo estrutura, apoio institucional e um orientador extremamente qualificado. A universidade não apenas me deu os meios, mas despertou em mim a vocação pela pesquisa. A iniciação científica é uma das experiências mais ricas da graduação. É onde você aprende a investigar, questionar e propor soluções reais. Ela te transforma e te torna agente de transformação da sociedade”, enfatiza.
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