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Pesquisa brasileira sobre educação sexual nas escolas ganha continuidade no Reino Unido

Estudo analisa práticas participativas adotadas em escolas britânicas para ampliar o debate e fortalecer políticas educacionais no Brasil

às 19h18
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A educação sexual nas escolas segue como um dos temas mais tensionados no debate educacional brasileiro, em grande parte devido a interpretações distorcidas sobre seus objetivos. No Congresso Nacional, especialmente entre alguns parlamentares, é recorrente o discurso que associa essa área do conhecimento a um suposto incentivo precoce à vida sexual de crianças e adolescentes; no entanto, as evidências caminham na direção oposta. A educação sexual não se centra na prática sexual, mas em dimensões como cuidado com o corpo, prevenção de violências, respeito às diferenças, consentimento, saúde e direitos. 

É a partir dessa demanda que se desenvolve a pesquisa de mestrado do psicólogo Davi Augusto Soares, egresso da Universidade Tiradentes (Unit), atualmente em estágio de pesquisa na Newcastle University, no Reino Unido, uma das universidades mais antigas e reconhecidas. Davi atua sob a supervisão da professora Deborah Ralls, pesquisadora que desenvolveu metodologias participativas voltadas ao trabalho com jovens em contextos escolares.

“Já é possível perceber diferenças entre o debate sobre educação sexual no Brasil e no Reino Unido. Aqui, existem programas de educação sexual implementados pelo governo, com currículos bem definidos e uma discussão constante sobre o tema, tanto no campo político quanto na sociedade. No Brasil, por outro lado, não há um programa nacional de educação sexual implementado de forma sistemática. A abordagem acaba sendo mais restrita, geralmente focada apenas em aspectos biológicos, enquanto aqui a educação sexual é trabalhada de forma mais ampla, considerando dimensões históricas, culturais e psicossociais da sexualidade”, compartilha.

Pesquisa construída a partir da escuta 

O percurso da pesquisa evidencia um movimento ainda pouco consolidado no país: o de pensar políticas e práticas educacionais a partir da escuta ativa dos sujeitos envolvidos, em diálogo com experiências internacionais que já contam com maior institucionalização do tema.  “Como o objetivo é desenvolver uma proposta coletiva de educação sexual junto aos jovens, estou estudando, de forma prática, metodologias participativas e democráticas. Uma delas é o chamado Relational Toolkit. A ideia é retornar ao Brasil compreendendo profundamente essa metodologia para adaptá-la e aplicá-la na minha pesquisa, respeitando o contexto brasileiro”, conta.

O trabalho é desenvolvido em uma escola pública de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, em parceria com a Universidade Estadual Paulista (Unesp). Mesmo durante o período do estágio no exterior, a pesquisa segue em andamento no Brasil, com reuniões virtuais semanais que garantem a continuidade do diálogo com jovens e educadores.

Os desafios para essa experiência internacional começaram muito antes da viagem. “Esse é um projeto que venho planejando desde 2023. Entre planejamento, elaboração do projeto, contato com a professora internacional e organização da documentação, foi um processo longo. A primeira submissão, inclusive, não foi aceita, o que exigiu uma reconsideração e uma nova aplicação. O aceite definitivo só chegou em outubro de 2025, e eu tive cerca de dez dias para organizar tudo. Apesar dos desafios, tive um apoio fundamental do meu orientador de mestrado, da professora internacional, da minha mentora de carreira internacional, além de amigos e familiares. Ter uma rede de apoio foi essencial”, relembra.

Impactos para além da pesquisa

A vivência no Reino Unido tem provocado impactos pessoais e profissionais. No plano individual, Davi destaca o processo de adaptação e autonomia em um contexto sem uma rede prévia de apoio. No campo profissional, o estágio amplia o acesso a pesquisadores de referência, debates atuais e possibilidades de colaboração internacional.

A internacionalização da pesquisa também fortalece seu potencial de contribuição para o Brasil. “Desde 2022, desenvolvo um projeto de educação sexual em escolas públicas, que vem crescendo a cada ano. No entanto, quando pensamos em impacto em larga escala, é fundamental dialogar com políticas públicas. A experiência internacional me permite compreender o que funciona e o que não funciona em outros países, aprimorar metodologias e fortalecer o embasamento do meu trabalho, dando mais consistência para influenciar práticas e políticas no Brasil”, relata.

Além das exigências acadêmicas do mestrado, há planos de publicação dos resultados e de consolidação de parcerias com instituições britânicas e europeias. Para Davi, a experiência pode servir de referência para outros pesquisadores brasileiros interessados em ampliar horizontes e fortalecer a produção científica nacional por meio do diálogo internacional. “É uma experiência transformadora, que impacta diretamente a forma como pesquisamos e compreendemos o mundo”, finaliza.

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