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Projeto ReciclaON promove capacitação em resíduos eletrônicos com apoio da Unit 

Ação realizada em Aracaju une universidades, poder público e cooperativas para transformar o descarte tecnológico em oportunidade sustentável

às 19h10
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A cada nova geração de celulares, computadores e aparelhos digitais, uma velha leva de equipamentos é descartada sem destino certo. Esse fluxo constante de trocas tem feito do lixo eletrônico ou REE, Resíduos Eletroeletrônicos uma das formas de poluição que mais cresce no planeta. O problema vai muito além da estética urbana: placas, fios e baterias carregam metais como chumbo, mercúrio e cádmio, substâncias tóxicas que, quando manipuladas de forma incorreta, contaminam o solo, o ar e a água, comprometendo ecossistemas inteiros e a saúde humana.

Embora o Brasil possua legislação específica para o descarte de REE há mais de uma década, ainda são poucas as cidades com estrutura adequada para reciclagem e logística reversa. Nesse contexto, ações que unem conscientização, capacitação técnica e engajamento social tornam-se fundamentais para mudar o cenário, e foi justamente com esse propósito que o Projeto ReciclaON, apoiado pelo Fundo Socioambiental da Caixa Econômica Federal, chegou a Aracaju.

União entre ciência, sociedade e meio ambiente

A capital sergipana foi a décima cidade do país a sediar o Curso de Desmontagem de Resíduos Eletroeletrônicos, uma das ações do programa ReciclaON – Educação para o Descarte de Resíduos Eletroeletrônicos. A iniciativa é coordenada nacionalmente pelo Instituto Gea – Ética e Meio Ambiente, em parceria com o Laboratório de Sustentabilidade (LASSU) da Universidade de São Paulo (USP).

Em Sergipe, a execução contou com uma verdadeira força-tarefa local, reunindo a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Sema), o Instituto de Tecnologia e Pesquisa (ITP), o projeto Meninas na Ciência e o programa Conduta Consciente, da Universidade Tiradentes (Unit), que disponibilizou seus laboratórios e estrutura para o desenvolvimento das atividades. Durante duas semanas, catadores de 30 cooperativas sergipanas (metade do interior e metade da Grande Aracaju) participaram de capacitações práticas e teóricas nos laboratórios da Unit.

Para Cláudia Melo, professora do Programa de Pós-Graduação em Biociências e Saúde da Unit e coordenadora do Conduta Consciente, o diferencial da ação foi integrar diferentes setores, público, social e acadêmico em torno de um mesmo objetivo. “O Instituto GEA recebe o financiamento e oferece a capacitação; nós, como universidade, entramos com a estrutura, a pesquisa e o envolvimento de professores e alunos. Essa combinação permitiu que a capacitação em Sergipe fosse realizada de forma colaborativa, unindo responsabilidade ambiental e impacto social”, explica.

Segundo ela, o curso abrange tanto o aspecto técnico quanto o humano. “O primeiro nível de capacitação orienta os catadores sobre proteção e cuidados no trabalho. Eles recebem EPIs, máscaras e uniformes, além de aprender a valorizar sua atividade e aumentar a rentabilidade. Sem esse conhecimento, muitos danificam os equipamentos ao retirar peças, o que reduz o valor do material e aumenta os riscos. Com a capacitação, aprendem a desmontar e separar corretamente os componentes, podendo lucrar até dez vezes mais e reduzir o impacto ambiental, evitando que metais pesados contaminem o solo e a água”, completa Cláudia.

Mineração urbana e o potencial dos resíduos eletrônicos

A professora Sílvia Egues, do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Processos (PEP) da Unit, destacou que a iniciativa vai além da conscientização ambiental: trata-se de uma aplicação prática dos conceitos de engenharia química voltada à sustentabilidade. “Quando falamos de economia circular, estamos inserindo novos atores nesse processo, pessoas que passam a gerar renda a partir de materiais que antes seriam descartados. É uma nova forma de enxergar os resíduos”, explicou.

Segundo ela, o projeto representa um exemplo concreto do que se denomina mineração urbana, conceito que propõe substituir a extração de recursos naturais pela recuperação de materiais já existentes. “Em vez de retirar recursos de uma jazida, estamos extraindo valor de produtos que já foram utilizados. Esses materiais eletrônicos, quando desmontados, podem gerar metais e polímeros recicláveis. O cobre, o ferro e outros metais reaproveitados aqui deixam de ser extraídos da natureza”, completou.

A professora também ressaltou que a discussão sobre baterias e o reaproveitamento do lítio ganha cada vez mais relevância, especialmente diante do avanço dos veículos elétricos e dispositivos portáteis. “Mesmo quando o equipamento deixa de funcionar, o lítio continua presente, e é possível reaproveitá-lo sem a necessidade de nova extração mineral. Essa é uma fronteira tecnológica importante para o futuro”, observou.

Sílvia ainda lembrou que pesquisas internacionais vêm explorando alternativas de recuperação de metais preciosos em resíduos eletrônicos. “Em um congresso que participei em Portugal, uma pesquisadora apresentou um estudo sobre a extração de ouro a partir desses materiais. Embora as quantidades ainda sejam pequenas, o desenvolvimento de métodos viáveis pode transformar a forma como tratamos o lixo eletrônico nos próximos anos”, comentou.

Aprendizado que transforma e gera renda

O professor Augusto Azevedo, do ReciclaON, conta que os resultados já começam a aparecer de forma concreta, com cooperativas se organizando para ampliar a captação de eletrônicos e transformando o aprendizado em prática. “Temos visto um movimento crescente de instituições interessadas em participar, e isso mostra que a conscientização está se convertendo em ação. Cada equipamento reaproveitado representa menos poluição e mais renda para quem trabalha nessa cadeia”, afirmou.

Augusto destacou que o ReciclaON vai além da capacitação: busca profissionalizar os catadores e inserir tecnologia e conhecimento na base da economia circular. “Eles passam a atuar com técnica, segurança e consciência ambiental, fortalecendo a cadeia de reciclagem e ampliando os impactos positivos para o meio ambiente e a sociedade. O módulo de gestão, por exemplo, ensina a calcular o valor dos materiais, planejar as vendas e estruturar a comercialização de forma sustentável”, explica.

O cooperado Dárcio Ferreira, da Cooperativa CARE, participou das duas edições do curso em Aracaju e afirma que o aprendizado já faz diferença no dia a dia do grupo. “Aprendemos a identificar peças que antes passavam despercebidas e a dar o destino certo a cada componente. Agora conseguimos trabalhar com mais segurança e aproveitar melhor o material”, conta. Ele também elogia a estrutura da Universidade Tiradentes e conta que fez toda a diferença. “O espaço é acolhedor, bem equipado e faz a gente se sentir valorizado. Toda vez que temos capacitação aqui, saímos com mais conhecimento e motivação”, compartilha.

Responsabilidade que se multiplica

Com o avanço das tecnologias, o volume de resíduos eletrônicos tende a crescer ainda mais nos próximos anos. Iniciativas como o ReciclaON e o Conduta Consciente mostram que enfrentar esse desafio exige uma rede de cooperação, entre universidades, poder público, setor produtivo e sociedade civil. Para Cláudia Melo, o projeto é uma forma de mostrar que a crise climática não é um problema distante. “Ela está mais próxima do que imaginamos. O que fazemos com o lixo que geramos todos os dias tem impacto direto no planeta”, observa.

Além de beneficiar as cooperativas, os resultados do curso também contribuem para os indicadores de sustentabilidade da Unit junto ao MEC, reforçando o compromisso institucional com a gestão ambiental. “Estamos construindo métricas específicas sobre os resíduos gerados e tratados durante o curso, o que fortalece nossa política de responsabilidade ambiental e educativa”, conclui Cláudia.

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