O crescimento do número de pessoas nas academias nos últimos anos tem impulsionado hábitos mais saudáveis e incentivado a prática regular de exercícios físicos. A musculação, por exemplo, ganhou ainda mais popularidade entre pessoas que buscam qualidade de vida, condicionamento físico e melhora estética. No entanto, junto com os benefícios, existe a necessidade de atenção à execução correta dos exercícios e ao respeito aos limites do corpo para evitar lesões graves.
Recentemente, um caso chamou atenção nas redes sociais após um fisiculturista romper o tendão do quadríceps durante a execução do leg press com cerca de 400 kg. O episódio reacendeu discussões sobre os riscos do uso excessivo de carga e da execução inadequada em aparelhos considerados, por muitos praticantes, mais seguros dentro da academia.
Segundo o ortopedista e professor da Universidade Tiradentes (Unit), Mário Augusto Cruz, o leg press costuma transmitir uma falsa sensação de segurança justamente por oferecer mais estabilidade ao praticante. “O leg press é frequentemente considerado mais seguro por oferecer maior estabilidade e menor exigência de equilíbrio em comparação ao agachamento livre. No entanto, isso pode criar uma falsa sensação de segurança e estimular o uso de cargas excessivas”, explica.
De acordo com o especialista, a ruptura do tendão do quadríceps geralmente acontece durante uma contração excêntrica intensa, quando o músculo tenta frear a flexão do joelho sob alta carga. “Nessa posição, o mecanismo extensor do joelho sofre enorme tensão mecânica, aumentando o risco de falha tendínea, principalmente em tendões já degenerados ou sobrecarregados”, afirma.
Execução inadequada aumenta riscos
Entre os erros mais comuns durante o exercício, doutor Mário destaca a flexão excessiva dos joelhos durante a descida do aparelho. Segundo ele, aproximar demais os joelhos do tórax aumenta significativamente a pressão sobre as estruturas do joelho. “O erro mais comum é permitir flexão excessiva do joelho, aproximando demais os joelhos do tórax durante a descida. Essa posição aumenta significativamente a compressão femoropatelar e a tensão sobre o tendão do quadríceps e o tendão patelar”, pontua.
O ortopedista ressalta ainda que o risco de lesão não está relacionado apenas ao peso utilizado no aparelho, mas também à forma como o movimento é executado. “Os dois fatores são importantes e atuam de forma combinada. A carga elevada aumenta diretamente a força transmitida ao mecanismo extensor do joelho. Porém, a posição do joelho tem enorme influência biomecânica”, explica. Segundo ele, mesmo cargas menores podem se tornar perigosas quando associadas a ângulos extremos, fadiga muscular ou execução inadequada.
Antes que uma lesão grave aconteça, o corpo normalmente apresenta sinais de sobrecarga. Dor acima da patela durante ou após os treinos, rigidez ao acordar, desconforto ao subir escadas e sensação de fraqueza no joelho estão entre os principais sintomas de alerta. “Muitas rupturas acontecem em tendões que já apresentam desgaste causado por microlesões repetitivas. Algumas doenças também podem aumentar o risco de degeneração tendínea, como diabetes, insuficiência renal, gota e doenças reumatológicas, além do uso de corticoides e alguns antibióticos”, enfatiza.
O risco, segundo o ortopedista, existe tanto para atletas experientes quanto para praticantes comuns. “Atletas experientes costumam trabalhar com cargas muito elevadas e alto volume de treinamento, aumentando o estresse mecânico acumulado sobre o tendão. Já praticantes comuns frequentemente apresentam execução inadequada, falta de preparo muscular, progressão rápida de carga e menor supervisão técnica”, relata.
Recuperação pode ser longa
No momento da ruptura, o paciente costuma sentir um estalo forte acompanhado de dor intensa e perda imediata da força na perna. Em muitos casos, a pessoa perde a capacidade de esticar o joelho ou até mesmo de caminhar. Rupturas completas geralmente exigem cirurgia para reinserção do tendão e recuperação do movimento do joelho. Já lesões menores podem, em alguns casos, ser tratadas sem procedimento cirúrgico. “A recuperação costuma ser longa, com reabilitação e retorno às atividades leves em aproximadamente três a quatro meses”, afirma.
Para reduzir os riscos durante o treino no leg press, o ortopedista recomenda evitar flexão excessiva do joelho, manter controle durante a descida, não sacrificar a técnica para aumentar a carga e respeitar dores persistentes. Além disso, ele reforça a importância do acompanhamento profissional, do fortalecimento muscular adequado e da progressão gradual de peso nos treinos.
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