Com fardas coloridas, espadas nas mãos, cantos marcados pela oralidade e encenações que representam batalhas marítimas entre cristãos e mouros, a Chegança de Santa Cruz permanece como uma das manifestações culturais mais tradicionais de Itabaiana. Mantida pela participação da comunidade e pela transmissão entre gerações, a expressão popular atravessa o tempo sem perder o vínculo com a memória e a identidade cultural do município.
De origem ibérica, especialmente portuguesa, a Chegança chegou ao Brasil durante o período colonial e ganhou características próprias no Nordeste. Em Sergipe, a manifestação se fortaleceu dentro das comunidades populares e passou a integrar festas religiosas e celebrações culturais, unindo teatro, música e devoção em apresentações marcadas pelo simbolismo.
Em Itabaiana, a tradição continua sendo preservada por brincantes, músicos e organizadores que mantêm vivos os rituais, os figurinos e os cantos tradicionais. Segundo o professor da Universidade Tiradentes (Unit), Rony Silva, a Chegança ocupa um papel fundamental na construção da identidade cultural local. “A Chegança é uma das manifestações mais importantes para a identidade cultural de Itabaiana por sintetizar memória histórica, religiosidade e pertencimento coletivo”, afirma.
O professor destaca ainda que estudiosos da cultura sergipana, como Luiz Antônio Barreto, consideram a Chegança uma expressão essencial da “sergipanidade”, enquanto o antropólogo Jorge Carvalho enfatiza o caráter coletivo e social da prática cultural.
Tradição transmitida pela oralidade
A permanência da Chegança ao longo dos anos está ligada, principalmente, à transmissão oral e ao envolvimento da comunidade. Mestres, músicos, brincantes e organizadores exercem papel fundamental para que a tradição continue viva entre crianças, jovens e adultos. “Pesquisas desenvolvidas pela Universidade Tiradentes apontam que a continuidade da manifestação acontece justamente pela participação ativa da população, que mantém os ensaios, apresentações e rituais culturais associados à Chegança”, elenca.
Historicamente, esse tipo de manifestação popular ganhou força em diferentes cidades do Nordeste brasileiro, sobretudo em comunidades marcadas pela influência católica e pela valorização das festas tradicionais. Em Sergipe, as Cheganças passaram a integrar celebrações religiosas, festas de padroeiros e eventos culturais, tornando-se parte importante do calendário popular. “Além do aspecto artístico, essas apresentações funcionam como uma espécie de ‘memória viva encenada’, em que cada canto, personagem e encenação ajuda a preservar referências históricas e culturais de um povo”, pontua.
Mudanças sem perder a essência
Mesmo mantendo suas características centrais, a Chegança também passou por transformações ao longo do tempo. Houve adaptações nos figurinos, redução na duração das apresentações e inserção em novos espaços culturais, incluindo festivais e ações promovidas por políticas públicas de preservação cultural.
“Apesar dessas mudanças, a essência da manifestação permanece ligada à resistência cultural e à valorização da identidade coletiva. A tradição segue cumprindo um papel importante tanto para quem participa diretamente quanto para quem acompanha as apresentações. Ela representa resistência cultural, fé e identidade coletiva para participantes e espectadores”, ressalta.
Assim como outras manifestações populares brasileiras, a Chegança enfrenta desafios contemporâneos relacionados à continuidade da tradição. Entre eles estão o desinteresse de parte da juventude, a escassez de investimentos financeiros e a concorrência com a cultura midiática e digital. “Diante desse cenário, ações comunitárias, pesquisas acadêmicas e iniciativas de valorização do patrimônio cultural têm se tornado fundamentais para fortalecer a preservação da manifestação”, pontua Rony.
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