Realizado em Lima, o Campeonato Pan-Americano de Karatê reuniu atletas de diferentes países em uma das disputas mais técnicas e exigentes do calendário internacional. A competição, que movimentou a capital peruana em outubro, colocou no mesmo espaço estilos variados, alto nível de preparação e a experiência de representar as cores de cada nação em um evento de grande porte.
Entre os competidores estava Beatriz Andrade, aluna de Educação Física da Universidade Tiradentes (Unit), que integrou a Seleção Brasileira pela primeira vez e voltou ao país com a medalha de prata após uma das participações mais significativas de sua carreira. Ao lembrar da oportunidade de competir fora do país, Beatriz descreve o momento como um sonho realizado.
“Foi uma emoção completa, chegar onde sempre sonhei estar. Representar o Brasil, fazer parte da Seleção Brasileira e estar em outro país é um agraciamento muito grande”, afirma. A atleta conta que viver como estrangeira também tornou a viagem especial. “Foi muito divertido estar no lugar de ‘gringo’, se comunicar em outro idioma, lidar com moeda e economia diferentes, gastronomia única e costumes locais. É tudo muito entusiasmante de experienciar”, completa.
O encanto multicultural veio acompanhado do que ela define como o nível técnico mais alto que já enfrentou. De acordo com Beatriz, a disputa superou todas as competições das quais havia participado. “O nível era altíssimo. Impressionante a diferença técnica e expressiva de todos os outros campeonatos, ainda mais por ser união de confederações”, explica. Para ela, encarar adversários tão qualificados elevou a exigência física e mental.
Apesar da competitividade intensa, a atleta destaca o clima de cooperação entre os brasileiros. “Houve muito apoio mútuo, torcida e incentivo, mesmo entre atletas da mesma categoria”, relata. Segundo Beatriz, o ambiente favoreceu trocas e amizades com participantes do Chile, Peru e de diversas regiões do Brasil, ampliando ainda mais o impacto da experiência.
Preparação, expectativas e suporte técnico
A construção dessa conquista começou muito antes da viagem. Beatriz afirma que sua rotina de preparação foi marcada por disciplina e aperfeiçoamento técnico constante. “Sempre fui persistente nos treinos, buscando ser melhor do que no dia anterior e repetindo técnicas incansavelmente, com um gás ainda maior por causa desse objetivo tão grandioso que me esperava”, destaca.
Embora estivesse fisicamente confiante, ela admite que lidou com desafios emocionais antes do embarque. “Todos os dias eu sentia aquele frio na barriga, me perguntando se estava realmente preparada para a competição e para viver em outro país”, conta. Para Beatriz, essa mistura de ansiedade e expectativa acabou intensificando o significado da viagem.
A atleta também ressalta o papel dos treinadores no processo de preparação. “Meus professores sempre me apoiaram e incentivaram, se disponibilizando para treinos específicos focados no meu objetivo e acreditando no meu potencial”, diz. Esse acompanhamento técnico, segundo ela, foi determinante para entrar no Pan-Americano com segurança e clareza de propósito.
Caminho até a medalha
A prata veio na categoria Kobudo, disputada com armas tradicionais, no caso de Beatriz, o bastão BO, e composta por homens e mulheres. Antes da conquista, porém, ela enfrentou momentos difíceis. “Eu tinha perdido duas categorias que me tiraram do pódio. O maior desafio foi manter a cabeça no lugar e acreditar que ainda conseguiria na última chance. Foi muito significativo”, relembra.
O instante em que percebeu que garantiria a medalha permanece entre os mais marcantes da carreira. “Foi uma vontade imensurável de chorar de emoção, uma alegria inabalável. Passou um filme na minha cabeça de tudo o que eu passei e do quanto esperei por esse momento. A sensação foi um êxtase completo, inexplicável e inesquecível”, descreve.
Na final, a atleta teve a percepção clara de seu crescimento técnico. “Eu só pensava em dar tudo de mim, ir além do meu máximo. O campeão foi de um nível sublime, e por um momento eu pensei em como eu estava bem, de estar equiparada a um atleta tão forte. Essa percepção me ajudou muito na autoestima”, afirma.
Próximos passos
Para Beatriz, segurar a medalha de prata em um campeonato continental transformou algo que parecia distante em realidade. “É surreal. Significa que tudo o que eu fiz, toda a insistência em não desistir e todo o apoio de amigos, família e patrocinadores me guiou para o destino certo”, diz. Ela afirma que ainda está assimilando o peso da conquista.
O resultado também abriu caminhos importantes para o futuro. Com o vice-campeonato, a atleta garantiu vaga no Mundial de Karatê, que será realizado em novembro de 2026, na Turquia. “Pretendo participar, planejando, treinando e buscando recursos para confirmar minha presença”, explica. A visibilidade obtida no Pan-Americano já começa a render oportunidades. “Com a medalha, consigo buscar mais recursos e apoio para alcançar outros campeonatos e trazer mais títulos para o Brasil, para Sergipe e para o meu crescimento como atleta”, ressalta.
Além disso, Beatriz continuará participando das competições anuais da Federação como copas, sergipanos, brasileiros de artes marciais, interestilos e campeonatos de união de confederações mantendo a regularidade que a levou ao cenário internacional. “Todos esses campeonatos fazem parte da minha rotina e ajudam no meu desenvolvimento”, finaliza.
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