O dia 8 de dezembro marca um dos feriados religiosos mais tradicionais comemorados em Sergipe: o dia de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, uma das denominações atribuídas a Maria, mãe de Jesus Cristo. A data, instituída em 1477 pelo Papa Sisto IV, exalta uma um dos principais dogmas da Igreja Católica: o de que Maria foi totalmente preservada de qualquer tipo de pecado, desde a sua concepção até sua assunção aos céus. Desde sua instituição, a data é considerada uma “festa de guarda”, isto é, dia de preceito no qual todos os católicos devem participar das missas, procissões e solenidades.
A “Imaculada Conceição de Maria” é fundamentada em duas passagens bíblicas. A primeira, no livro do Gênesis, quando Deus expulsa Adão e Eva do Paraíso, anuncia que colocou “inimizade” entre as descendências da Mulher (Maria) e da serpente (Satanás). E a segunda, no Evangelho de São Lucas, relata à forma como Maria foi saudada pelo anjo Gabriel: “Ave, cheia de graça! O Senhor é contigo”. Esta crença também se fortaleceu através das igrejas católicas de tradição oriental (como as ortodoxas), cujos padres e doutores usavam expressões como: “cheia de graça”, “lírio da inocência” e “mais pura do que os anjos” para se referir à grandeza da Mãe de Jesus.
A confirmação teológica do mistério sobre a Conceição da Virgem Maria veio em 1304, em uma reunião de doutores que fora convocada pelo então Papa Bento XI, em Paris (França). prevaleceu a conclusão do franciscano João Duns Escoto, segundo o qual era sumamente conveniente que Deus preservasse Maria do pecado original, pois a Santíssima Virgem era destinada a ser mãe do seu Filho, o que é possível para a Onipotência de Deus.
A celebração da data para homenagear Nossa Senhora foi logo incluída no calendário romano, mas tornou-se dogma de fé para a Igreja Católica em 8 de dezembro de 1854, quando a bula Ineffabilis Deus, do Papa Pio IX, declarou que “Maria é isenta do pecado original”. Anos antes, em 1830, a própria Virgem Maria apareceu para a religiosa Catarina Labouré e pediu que fosse feita uma medalha com a oração: “Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós”. Esta medalha, anunciada em todo o mundo, possibilitou a devoção a Maria Imaculada, induzindo os bispos a solicitarem ao Papa a definição do dogma já vivenciado entre os cristãos.
Devoção no Brasil
A devoção à Nossa Senhora da Conceição foi trazida ao Brasil pelos religiosos portugueses que chegaram juntamente com os colonizadores. Um dos principais divulgadores dessa devoção foi o padre José de Anchieta (1534-1597), que ficou conhecido por poemas e canções que escrevia em homenagem a Maria. Com o crescimento da Igreja Católica no Brasil, muitas paróquias e igrejas passaram a ser dedicadas à “Imaculada Conceição”.
Foi o que aconteceu em 1855, quando o então presidente da Província de Sergipe, Inácio Joaquim Barbosa, decretou a transferência da capital para o então povoado Santo Antônio do Aracaju. Na ocasião, o governante dedicou a futura cidade aos cuidados da santa adotando-a como padroeira. Já em 1862, o então arcebispo de São Salvador, dom Manoel Joaquim da Silveira (1861-1874) criou a paróquia votiva a Nossa Senhora da Conceição, como Padroeira da Cidade de Aracaju, e sua igreja foi oficialmente inaugurada em novembro de 1875. Em 1911, quando a Diocese de Aracaju foi criada e instalada, a então paróquia foi elevada à condição de Catedral Diocesana, e, desde 1960, é a sede da Arquidiocese.
A festa é marcada por uma intensa programação de missas e procissões pelas ruas do centro de Aracaju, com a imagem da santa sendo levada por milhares de pessoas. Em 2020, uma lei estadual aprovada pela Assembleia Legislativa de Sergipe (Alese) declarou a Festa da Padroeira de Aracaju como Patrimônio Cultural e Imaterial do Estado de Sergipe, além de incluí-la no Calendário Oficial de Eventos do Estado.
Além da cidade e da Arquidiocese de Aracaju, a Imaculada Conceição também é padroeira dos municípios sergipanos de Riachuelo, Frei Paulo, Arauá, Indiaroba, Itabaianinha, Brejo Grande, Canhoba, Canindé do São Francisco, Itabi, Poço Redondo e Porto da Folha. Outras capitais também a adotaram como padroeira e têm feriados em sua homenagem: Boa Vista (RR); Belo Horizonte (MG); Manaus (AM); Belém (PA); Teresina (PI); São Luís (MA); Salvador (BA); Recife (PE); Maceió (AL); João Pessoa (PB); e Cuiabá (MT).
Saudando a Oxum
A mesma data de Nossa Senhora da Conceição também é adotada pelas religiões de matriz africana, como a umbanda e o candomblé. Neste dia, elas homenageiam Oxum, orixá protetora das águas doces e considerada como rainha do amor, da beleza, da prosperidade e da fertilidade. A coincidência de datas se deu por força da sincretização dos cultos pelos africanos escravizados, que eram proibidos de praticar suas religiões e passaram a associar seus orixás aos santos católicos.
Segundo a tradição africana, Oxum é associada ao equilíbrio das emoções da fecundidade e da natureza, sendo uma mãe que intercede pelos seres humanos em todas as situações. E também representa a conciliação da delicadeza e da sensibilidade com a força, a garra e a determinação das mulheres. A orixá se caracteriza principalmente pela cor amarela e por um espelho, através do qual admira a própria beleza.
Por isso, os adeptos da umbanda e do candomblé costumam homenageá-la com espelhos, perfumes e flores. Eles promovem cortejos e afoxés pelas ruas no dia 8, com toques de atabaques e cantos tradicionais. Em Aracaju, os principais acontecem pela manhã, indo da Colina do Santo Antônio até as escadarias da Catedral Metropolitana (que costumam ser lavadas com água-de-cheiro), e à noite, com o Afoxé Omo Oxum, na Orla de Atalaia.
com informações de Agência Alese, Alma Preta Jornalismo, Arquidiocese de Aracaju e Canção Nova
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