Uma pesquisadora e advogada egressa da Universidade Tiradentes (Unit) é a autora de uma dissertação de mestrado recentemente destacada pelos canais de comunicação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O trabalho de Debora Leite dos Santos, apresentado no Programa de Pós-Graduação em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades, da Universidade de São Paulo (PPGHDL/USP), estudou e analisou as formas de mobilização e organização coletiva dos motoboys, entregadores e outros trabalhadores que atuam com plataformas digitais via celular, dentro do contexto da chamada “uberização do trabalho”.
O tema da dissertação, intitulada “Novas formas de resistência e organização coletiva no trabalho por plataformas digitais: redes sociais fomentando solidariedade de classe”, foi uma continuidade das pesquisas que Débora fez ao longo do curso de graduação em Direito, na Unit, entre 2017 e 2021. A principal delas foi o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sobre “Organização coletiva como instrumento de emancipação: uma análise acerca do fenômeno da uberização”, com orientação do professor Ricardo das Mercês Carneiro. Segundo ela, a pesquisa analisou como esse modelo de trabalho, baseado na flexibilidade e na ausência de vínculos formais, produz desafios inéditos para a representação coletiva e para a garantia de direitos trabalhistas.
“Ao longo da pesquisa, discuti as possibilidades de mobilização e organização dos trabalhadores por aplicativos, observando que, mesmo diante de um contexto de fragmentação e precarização, surgem novas formas de articulação coletiva e reivindicação por direitos. A principal conclusão do trabalho foi a de que a organização coletiva, especialmente por meio da sindicalização e do fortalecimento de entidades representativas, permanece um instrumento fundamental para assegurar proteção social, ampliar a capacidade de negociação desses trabalhadores e enfrentar o processo de dessindicalização que enfraquece as lutas coletivas contemporâneas, bem como a precarização imposta pelo modelo de trabalho das plataformas digitais”, diz Débora.
Ela conta também que a escolha por estudar o tema surgiu da percepção de que as relações de trabalho no Brasil estão sendo profundamente transformadas pelo trabalho por aplicativos, sem que isso fosse plenamente compreendido pelo Direito. “Além disso, me chamou atenção como esses trabalhadores, mesmo em condições adversas, constroem formas próprias de participação e mobilização”, acrescentou a pesquisadora, que decidiu seguir com o tema no mestrado. “Na pós-graduação, pude ampliar essa investigação, desenvolver uma metodologia mais consistente e refinar as categorias analíticas utilizadas na pesquisa. De certa forma, o TCC foi essencial para consolidar meu interesse pelo tema e orientar os caminhos da minha trajetória acadêmica”, afirmou.
Durante o mestrado, Débora atuou como pesquisadora bolsista na Cátedra Oscar Sala, vinculada ao Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA/USP) e dedicada aos estudos sobre impactos sociais e regulatórios da internet e das tecnologias digitais de informação e comunicação. Além de desenvolver pesquisas na área de governança de agentes de inteligência artificial, ela foi monitora da disciplina: “Economia, Cultura e Poder na internet”, ministrada para alunos de pós-graduação da USP. “Graças ao financiamento oferecido pela Cátedra Oscar Sala, foi possível desenvolver meu trabalho no Instituto de Estudos Avançados da USP, contando com uma estrutura institucional de excelência, além de um ambiente intelectualmente estimulante e comprometido com a produção de conhecimento crítico. Essa oportunidade não apenas viabilizou a continuidade da pesquisa, mas também ampliou minhas possibilidades de formação, diálogo acadêmico e amadurecimento intelectual”, considerou a egressa.
O que as mensagens indicam
Para a dissertação de mestrado, Débora coletou mais de 134 mil mensagens em oito grupos públicos de entregadores no Telegram, publicadas entre abril de 2023 e setembro de 2025. A partir dessa coleta, foi realizado um recorte analítico com a seleção de 4.626 publicações, identificadas com base em 11 palavras-chave relacionadas à mobilização coletiva e à realidade da categoria.
A partir de um processo de Análise Crítica do Discurso (ACD), os resultados demonstram que as redes sociais e os aplicativos de mensagens são ferramentas essenciais para os entregadores, servindo como espaços de comunicação, mobilização, denúncia e apoio mútuo, ajudando a fortalecer a identidade da categoria. Apontaram ainda aspectos como a coexistência de discursos contraditórios (ideário empreendedor x solidariedade de classe); rejeição dos sindicatos tradicionais e do modelo atual da CLT (considerado burocrático e ineficaz); estratégias de manipulação (como a astroturfing) utilizadas pelas empresas contra movimentos da categoria, precarização de trabalhadores negros e pertiféricos; e o cooperativismo de plataforma, no qual os trabalhadores recuperam o controle sobre os meios de produção digitais.
“Embora existam vários achados, todos convergem para uma conclusão central: apesar da fragmentação e do isolamento impostos pelos algoritmos, os aplicativos de mensagens (como o Telegram) e as redes sociais, funcionam como catalisadores fundamentais para a reconfiguração da ação coletiva e da resistência”, argumenta Débora, pontuando ainda que o tema da dissertação está no centro das transformações contemporâneas do mundo do trabalho e das desigualdades sociais. “O avanço das plataformas digitais vem modificando profundamente as relações de trabalho, as formas de organização coletiva e as condições de vida de milhares de trabalhadores. Trata-se de uma agenda urgente e socialmente relevante, com impactos diretos sobre direitos, renda e proteção social”, completa.
A experiência da Iniciação
A atuação de Débora na Iniciação Científica, ainda na graduação, abriu-lhe o gosto por pesquisar e compreender fenômenos sociais complexos e, a partir disso, contribuir para reflexões e transformações concretas na sociedade. O interesse como pesquisadora se voltou especialmente para temas relacionados ao mundo do trabalho, às desigualdades sociais e à garantia de direitos. “São questões que impactam diretamente a vida das pessoas. A pesquisa me motiva justamente por permitir analisar criticamente essas dinâmicas e produzir conhecimento socialmente relevante”, justificou.
A egressa também que a experiência do curso de Direito foi uma experiência fundamental para a sua trajetória acadêmica e pessoal. “A Iniciação Científica foi o espaço em que aprendi, na prática, a desenvolver pesquisa, construir problemas de investigação e aprimorar o pensamento crítico. Além do aprendizado metodológico e teórico, ela também me proporcionou contato mais próximo com a vida universitária, com grupos de pesquisa e com debates acadêmicos que ampliaram minha visão sobre a produção do conhecimento. Sem dúvida, foi decisiva para minha escolha de seguir na pós-graduação e continuar atuando na pesquisa”, conta.
E ao falar do que aprendeu com iniciação científica, a pesquisadora também ressaltou o papel exercido pela Unit em sua trajetória acadêmica, através de uma formação sólida e um ambiente de incentivo à pesquisa desde a graduação. “Foi na universidade que tive acesso às primeiras experiências acadêmicas mais aprofundadas, principalmente por meio da Iniciação Científica, que despertou e consolidou meu interesse pela pesquisa. Além da base teórica e metodológica, a Unit também contribuiu ao oferecer oportunidades de participação em projetos, debates e atividades acadêmicas que foram fundamentais para minha decisão de seguir na pós-graduação e construir uma carreira voltada à produção de conhecimento”, concluiu ela.
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