Por muitos anos, Aracaju conviveu com a presença incômoda de uma casa de saúde que se propunha a “tratar” e “curar” pessoas com transtornos mentais, mesmo que com métodos bastante controversos. Este local era o Hospital Adauto Botelho, que funcionou como manicômio durante 52 anos no bairro Getúlio Vargas, próximo ao centro de Aracaju. A história de sua existência foi tema de uma pesquisa de iniciação científica realizada entre 2023 e 2024 por Amanda Brito de Matos, então estudante do curso de Psicologia da Universidade Tiradentes (Unit).
A pesquisa, orientada pelo professor José Marcos Melo dos Santos e com a participação do também aluno Gustavo César Xavier Abbehusen Costa, se dedicou a uma análise documental e crítica sobre os processos de institucionalização manicomial, a partir de uma perspectiva histórica e contemporânea. Para isso, foram estudados documentos oficiais, artigos, trabalhos científicos e reportagens produzidas por jornais e revistas da época, além de visitas a bibliotecas e acervos locais.
De acordo com Amanda, a pesquisa buscou promover uma análise crítica dos processos de institucionalização manicomial em Aracaju, questionando a eficácia, impactos e implicações éticas dessas práticas na sociedade e na vida das pessoas com transtornos mentais. “Desde sempre, eu vi a Psicologia pelos olhos da História. Como filha de historiador, entendo toda forma de ciência pelo ponto histórico e social que a localiza. Assim, para entender melhor o funcionamento do sistema de saúde mental em Sergipe, era necessário um retrato real do histórico dele”, disse a autora, que concluiu o curso no período 2024-1.
A pesquisa foi realizada dentro do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica da Unit (Probic) e foi apresentada em novembro do ano passado na 26ª Semana de Pesquisa (26ª Sempesq). “A Unit possibilitou um processo justo e uma bolsa, apenas assim consegui realizar a pesquisa. Além dos serviços de coordenação com orientação e apoio. E o mais importante, com a seleção impecável de professores, como o doutor Marcos Melo, que acolheu meu projeto orientado com carinho e firmeza. Não esqueço também do professor Bruno Felipe que mesmo não sendo meu orientador, trouxe pontuações imprescindíveis ao projeto, mostrando sempre como os docentes estão em união e em busca de um só objetivo que é crescer a ciência sergipana”, lembrou a egressa.
O ponto de partida para o início do estudo de IC foi o livro-reportagem “Holocausto Brasileiro”, da jornalista Daniela Arbex, que conta a história do antigo Hospital Colônia de Barbacena (MG). O local, que reunia várias instituições psiquiátricas, funcionou por quase 100 anos e foi responsável por mais de 60 mil mortes ocorridas ao longo de sua existência, em razão das péssimas condições de vida impostas aos internos. “Escolhi esse tema após muitas sessões de terapia! Os processos de institucionalização brasileiros sempre me doíam muito, e ler o ‘Holocausto Brasileiro’ foi um ponta pé para pensar em produzir algo que trouxesse foco também ao sistema do estado que tanto amo”, conta Amanda.
“Situação desumana”
A pesquisa constatou que as condições relatadas em Barbacena eram semelhantes às do Adauto Botelho, criado em 1954 para substituir o antigo “Hospital Colônia de Psicopatas” existente desde a década de 1940 (e que estava em crise na época). A sua estrutura e rotina de funcionamento seguiam a lógica adotada na época para o tratamento de pessoas que eram apontadas como “doentes mentais”: leitos insuficientes, ausência de terapias adequadas, uso indiscriminado de medicamentos e tratamentos hoje abolidos, como o de eletrochoque. Uma situação que foi se degradando ainda mais ao longo dos anos.
“A situação, hoje, do Adauto Botelho é mais desumana que alguns campos de concentração alemães, como por exemplo Treblinka”, comparou o então secretário estadual de Saúde, José Machado de Souza, no dia 29 de março de 1979, em entrevista registrada pelo Jornal de Sergipe. Na ocasião, ele tinha visitado o hospital e, após se alarmar com as condições encontradas, fez referência aos campos criados pelos nazistas para exterminar os judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Após a visita, o governo transferiu parte dos pacientes para a Clínica Psiquiátrica Garcia Moreno, em Nossa Senhora do Socorro.
“Na pesquisa, foi possível observar como o poder e o saber se entrelaçam na construção de verdades sobre a loucura, influenciando diretamente as políticas de saúde e as práticas médicas. Mesmo com todas as dificuldades de acesso aos materiais, perdidos ou sequer produzidos acerca dos segredos manicomiais”, analisa Amanda, pontuando que o Adauto Botelho teve um papel “revolucionário” enquanto foi parte do sistema manicomial. “Nem o mais novo, nem o mais velho, mas um dos mais conhecidos, que era conhecido popularmente como lenda urbana por todos os absurdos que aconteciam no Hospital”, define ela.
Apesar da comoção em 1979, o Hospital Adauto Botelho só foi fechado entre 1994 e 1996. O prédio foi cedido em 2008 para a Secretaria da Segurança Pública (SSP), que instalou ali o Presídio Militar (Presmil) e duas unidades administrativas do Corpo de Bombeiros. A desativação ocorreu no contexto da Luta Antimanicomial, que resultou na Reforma Psiquiátrica de 2001, que deu início à substituição dos manicômios pelos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Na ocasião, movimentos sociais e profissionais da saúde mental questionavam o modelo asilar de tratamento, considerado desumano, ineficiente e marcado pelas condições precárias e a violência nos hospitais psiquiátricos.
Para Amanda, a pesquisa reforça as convicções de que o modelo manicomial é incabível nos dias de hoje, com o avanço de técnicas mais humanizadas de terapia e tratamento para a saúde mental, baseadas principalmente no acolhimento e na convivência familiar. “Eu espero que a pesquisa tenha grande impacto na comunidade acadêmica na saúde, que compreendendo de maneira crítica as influências no processo de institucionalização, possa se fazer mudanças no sistema atual de cuidado com a saúde mental. Que os sistemas manicomiais sejam recusados mesmo em suas formas mais sutis. Sendo esse nosso maior objetivo, auxiliar na elaboração de um projeto de desinstitucionalização que fuja dos ‘desejos de manicômio’, a lógica institucionalizante que ainda assola os serviços de saúde”, argumenta a psicóloga.
Expandir o projeto
Mesmo após concluir o curso, Amanda pretende dar continuidade aos estudos que relacionam a Psicologia e a História, áreas de conhecimento que são suas grandes paixões, e nas quais alimenta o seu pensamento crítico. A ideia é revisar a pesquisa de IC e transformá-la em artigo científico para publicação em revistas especializadas. Futuramente, ela pretende fazer o mesmo estudo detalhado em todos os antigos hospitais psiquiátricos que funcionaram em Sergipe, o que ela já queria fazer na época da faculdade – e foi aconselhada por seu orientador.
“Uma iniciação científica não teria tempo suficiente, nem material, nem liberação, para fazer tantas coisas. Não seria possível. Mas ainda é uma vontade que eu tenho de continuar e expandir esse projeto. Ainda não sei exatamente como, mas eu espero do fundo do coração que consiga logo”, espera Amanda, que lembra com carinho e gratidão do seu período como bolsista de iniciação científica. “Ela mudou minha vida em tantos sentidos. Me mostrou como é possível fazer pesquisa, como é lindo trabalhar com ciência e também como é difícil. Me apresentou profissionais incríveis que me guiaram nesse caminho, sempre me mostrando que não estou só. Ainda me abriu os olhos para um sonho que estava apagado, de seguir a carreira acadêmica”, diz a egressa, prometendo chegar a ela “quando possível”.
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