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Nipah: o que é o vírus monitorado na Ásia e por que ele volta ao debate científico

Conhecido da ciência desde os anos 90, o Nipah tem histórico de surtos localizados, alta letalidade em casos graves e reforça a importância da vigilância em um mundo pós-covid

às 20h29
Foto: Universal Images Group/Getty Images
Foto: Universal Images Group/Getty Images
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Desde a pandemia de covid-19, vírus de origem animal passaram a despertar maior atenção da população e da comunidade científica. Esse olhar mais atento não surge do medo, mas da experiência recente de como doenças infecciosas podem atravessar fronteiras rapidamente em um mundo conectado. É nesse contexto que o vírus Nipah volta ao debate público, especialmente após novos registros de casos em países da Ásia.

Diferentemente do coronavírus, o Nipah não é um agente desconhecido nem um vírus emergente. Ele integra um grupo de patógenos monitorados há décadas por autoridades de saúde internacionais, justamente por apresentar quadros clínicos graves em parte dos pacientes. A preocupação, portanto, não está relacionada a um risco imediato de pandemia, mas à necessidade de acompanhamento constante e de informação qualificada para evitar desinformação e alarmismo.

O vírus Nipah foi identificado pela primeira vez em 1998, durante um surto envolvendo humanos e animais no Sudeste Asiático. O infectologista Matheus Todt, professor da Universidade Tiradentes (Unit), conta que desde então, sua circulação tem sido observada principalmente em países da Ásia, sempre associada a episódios localizados. Além disso, o vírus tem como principal reservatório natural morcegos frugívoros, que abrigam o patógeno sem desenvolver a doença.

“Esse padrão ajuda a entender por que os surtos costumam ocorrer em regiões específicas. Ao longo dos últimos 20 anos, diversos episódios foram registrados em países asiáticos, todos restritos a áreas delimitadas. O cenário atual em Bengala Ocidental, na Índia, segue essa mesma lógica epidemiológica, sem indicar um comportamento fora do histórico conhecido do vírus. A recorrência desses surtos, ainda que limitada geograficamente, mantém o Nipah no radar das autoridades sanitárias”, explica.

Gravidade da infecção

O principal fator de alerta em relação ao Nipah está no impacto clínico da doença. Matheus Todt explica que, embora nem todos os infectados desenvolvam quadros severos, as formas graves são particularmente preocupantes. “O que mais chama atenção são os casos que evoluem com inflamação intensa do cérebro, podendo levar à morte em até 75% das situações”, afirma.

Os sintomas iniciais costumam ser semelhantes aos de outras infecções virais, como febre, dor de cabeça e dores no corpo. “Esse início inespecífico dificulta a identificação precoce da doença, especialmente em regiões onde outros vírus circulam simultaneamente. Em parte dos pacientes, no entanto, o quadro evolui rapidamente. Nesses casos mais graves, podem surgir complicações respiratórias ou neurológicas, como encefalite, sonolência excessiva, confusão mental, convulsões e coma”, recomenda.

Transmissão e prevenção

A forma de transmissão do Nipah está diretamente ligada a fatores ambientais e sociais. De acordo com o infectologista, o desmatamento de áreas florestais na Ásia tem papel central nesse processo, ao reduzir o habitat natural dos morcegos e ampliar o contato deles com áreas habitadas por humanos. Além disso, a ingestão de alimentos contaminados por secreções desses animais é apontada como a principal via de infecção.

“A transmissão entre pessoas pode ocorrer, mas é considerada pouco frequente. Esse tipo de contágio depende de contato íntimo e prolongado, geralmente por meio de fluidos corporais. Ainda assim, o vírus pode ser transmitido algumas horas ou dias antes do aparecimento dos sintomas, o que exige atenção redobrada em ambientes de assistência à saúde”, conta.

No Brasil, não há circulação ativa do vírus. Segundo o especialista, foram confirmados apenas dois casos em profissionais de saúde que estiveram na Ásia. “Diante disso, a orientação para equipes médicas é manter vigilância, especialmente em relação a viajantes provenientes de regiões afetadas, sem gerar pânico na população”, compartilha.

Atualmente, o diagnóstico do Nipah é feito por meio de exames laboratoriais como o PCR, disponíveis apenas em centros de referência. Ainda não existem vacinas ou tratamentos específicos, embora pesquisas estejam em andamento. Para os especialistas, informação clara, monitoramento constante e cooperação internacional seguem sendo as principais estratégias para lidar com o vírus.

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